terça-feira, 9 de março de 2010

corpototal 26



(pintura de marlene dumas, "hiroshima mon amour", 2008)


(a Hiroshima e Nagasaki)



Gostava de dizer apenas as palavras sem o filamento
cortante do significado 6 e 9 de Agosto 1945, a árvore
branca ficou negra e todo o corpo ganhou a cor do
alcatrão, Hiroshima e Nagasaki como o outro lado
do limão, a destruição feita rocha da tormenta dia a
dia com o dedo da memória sobre a pele queimada

diria apenas o vento no lugar da casa e a paz na bandeira

José Gil

domingo, 7 de março de 2010

corpototal 25



(desenho de shelley jackson, "fingers", 1997)


a ferida aberta no litoral da mão
onde a rocha transparente transporta
a sombra do corpo rasante ao rio

viva a secante da sílaba
viva a vertical à ferida
viva o dedo da sua sombra
do peito aberta à roda do
colo negro

José Gil

sexta-feira, 5 de março de 2010

corpototal 24



(desenho de shelley jackson, "stomach", 1997)


Mulher azul de cabelo vermelho
Junto, bem junto à fonte do leite
Onde o umbigo se cobre de chocolate

te espero para cá dos oceanos longínquos
para cá dos paquetes, onde nasce o poente

o barulho das grandes cidades acalma
quando passas, todos sabem que vens
de longe de histórias que lhes inventaram
na cerca inclinada sobre a estrada de terra
batida ao lado da fonte onde bebes a água e
o leite fresco do verão intenso, falas do
poema mudo, na cidade velha, dizes fogo
e o poema foge de um lado ao outro do corpo
na agrimensura de cada célula capital e azul

José Gil

domingo, 28 de fevereiro de 2010

corpototal 23



(pintura de patrick caulfield, "girl on terrace", 1971)


amo-te no lugar do jantar
como um poema de coentros
na subtileza da culinária fresca
do verão – olho da janela dos
lugares novos na serra, quem diria
logo ali o mar no vale azul e verde

a tua cabeça fica em movimento no
meu colo como uma tapeçaria de línguas
quentes e carnudas, abro ligeiramente
o poema comprido e amo-te no lugar

procuro depois os dias como flores
uns abertos outros fechados dia e noite

José Gil

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

corpototal 22



(impressão de bruce nauman, "normal desires", 1973"

bato na pedra, é para bater na face
oblíqua da pedra, onde a pedra voa
traz silêncios, ama, onde oblíqua a
vida voa e a tua voz no claustro traz
as ondas da paz – um altar de santos

a pedra na vida passa e fica a face
obliqua sobre os cones negros da
fonte clara, abre as asas para bater as
asas na virtude dos Deuses pesados

canto obliquo do outro lado dos
claustros – só a voz a sombra e o silêncio
fresco, são quinze horas o umbigo abre

José Gil

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

corpototal 21



(trabalho de tracey emin, "Her soft lips touched mine and every thing became hard", 2008)


o poema está a ser magoante
no corpo lívido e raro, a
afirmação da palavra fica no raio
quadrado à hipótese do sujeito estético
magoante a noite em que o poema se prolonga

nada para dizer na folha curva
quem foge não foge dói e canta

José Gil

domingo, 1 de novembro de 2009

corpototal 20



(desenho de tony cragg, "untitled", 1997)


viajo verde no seu corpo simbólico
tiro sortes e divido as terras da lua
onde até a pedra se esfarela
sem cessar

traz-me a andaluzia nos dedos pequenos
a metamorfose dos gomos de laranjeira
falho-te sempre nas certezas humanas
a kura, a tua persúria clara leve a tua
alçaria, o teu encastelamento em flores
islâmicas de primavera, a tua curialização

trago-te as Metamorfoses de Ovidio
os mitos de Faetonte e de Actéon
os Deuses reduzidos a paixões e caprichos
no estado clássico – despe ainda o busto
com os seios negros, modernos e os
braços e as ancas bem rente à cor da terra

José Gil