domingo, 9 de outubro de 2011

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(fotografia de prying open, retirado da série "po's burn town", 2011)

(ao José Félix)

o que sobe do fundo, o que empurra

as nuvens com as duas mãos, onde
o clamor do rap abre o alcatrão no mais
profundo negro,

a luz da voz, que atravessa
o cérebro, disperso no centro da roda

canto o rap para contestar a polis
no meu descontentamento com
a força a força do corpo a corpo

alguém trata da história do poema
entre a Cova da Moura e o seu espelho

terra a terra, quanto fogo ainda há
sob as palavras - as tuas mãos nasceram
nas minhas costas há muitos anos
não as poderei afastar dos pássaros que
lhe chegam com espelhos de narciso

os salpicos desse ecrã táctil que alcanço
com as novas mãos um pombo, a revelação

como o cantor rap peguei estes versos com
as mãos os mais bonitos sinais do corpo vivo

José Gil

corpototal 47



(fotografia de filippo scarpi, "awakening 2", s/d)


Sem ritmo, sem lugar
com o torso da rua encantada
muda e nua cega de desejo
escrevo-te sílabas silvestres
entre amoras sem almas serei
apenas esta palavra da língua
espessa – conhecerei todos os
teus lábios, um organismo negro
entre a música ritual e uma palavra na
garganta até sufocar em gemido
como quem conhece o grito da libertação
sou o homem que imaginou o pão e o
vinho como sombra na grande mesa
vibrante entre as duas mãos rápidas
o corpo amado seguro e molhado

José Gil

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

água do madeiro



(fotografia de debra bloomfield, "untitled (from oceanscape series)", 2000-2001)


no litoral limite da erva do mar
onde a mão só chega ao tronco do ar
e treme porque já vagueei o sol

os longos cabelos loiros espelham
no oceano revelam o brilho das aves
que voam um dia procurando o belo
fica esta musa falando do amor frio
da água. só eu em fogo posso perceber
este inicio do dia

este início do poema dionisíaco
onde o sexo é o sabor da vontade
rompe do pássaro e das rochas

são as rochas que ascendem do mar
não o véu de espuma que
amanhece nos dedos
no declínio do céu no mar dourado
abre-me com a festa divina da pedra amarela
e só dói no doer já junto à areia
quando o mar bate junto à pedra
e bate no mastro dos aviões
o que pela espuma se dobra e ascende
mastro livre libertário das marés

trago ainda a loba negra ao lugar do mastro
o sol lentamente dobra as curvas
do alto do céu e da brisa
dói o que a dor não perde

a dor só perde quando o resto se encontra
o corpo, a vivência, o temor
- há uma sementeira de algo
no chamamento fácil da gaivota
e nada mais

tudo responde por detrás
do nervo dos olhos

a tardinha a casa abre a sua folha
e a égua de dossel claro
faz a sombra na areia
ninguém a levanta à altura
da janela que se abre ao canto
e o lugar fica para a árvore

Constantino Alves, Jorge Vicente e José Gil

(Água do Madeiro - Leiria)

domingo, 2 de outubro de 2011

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(fotografia de ansel adams, "cracked white paint and board (wood and whitewash)", 1970's)


“A forma que carece de ritmo é indefinida e deve ser definida ainda que não seja em verso, já que o indefinido é desagradável e difícil de entender”

Aristóteles



as leis dormem no mais exacto instante dos morangos
à flor da pele nos seus deleites de memória já que o
individuo foi substituído pelo homem comunitário em
todo o deserto entre girassóis de literatura das areias
integralmente animal no eixo da sorte nus mas não
invisíveis, pensa-se depois não será sempre assim no
murro em redor da casa no sofrimento eterno indescritível

"e nada mais ouviram nesse dia”(1) nem um digno
meio entre as catástrofes, nem um tecido de sombras
partilhado com os ecos, nem a chave apocromática, a
analogia e a metáfora nem a genética dos sabores, elos
da sociedade antiga tão global tal como as moléculas
mortas tautologicamente substituídas na totalidade e
no infinito da evasão (2) – amei-te natureza nos fins
com os seus concomitantes na sua capacidade fruidora
da natureza multicoral com os “apocalípticos e integrados”(3)
na compaixão (4) pela terra onde derramas sempre o teu
sangue numa tarefa ciclópica com um imenso matadouro onde
a poesia é apenas do domínio das incertezas – uma casa sem
portas com o corpo nu no umbral azul e o mar em espuma
na última parede aberta, instruiu-se a casa, o vestido, a
máscara nua e negra onde tudo fica azul eterno
no enciúme dos pastores de palavras nos abismos
da oratória épico - bíblica de raiz comum – somos
pássaros, anjos ou plantas para ordenar a calidez
das paredes e das portas abertas, nus nos umbrais com
descuidos da poesia da terra sem pensar na totalidade da
informação afectiva desde o cristal até ao fumo acirrando

com os teus mamilos negros de língua sob a romãzeira
num pensamento imaginante distinto dos polemos seciantes

“o zero é o infinito”(5) na dialéctica negativa das cruentas
memórias na banalidade das indústrias do mal

“e nada mais escreveste nesse dia” ante o falar sempre
para além das brumas do tempo, dum provir indeciso
puxado pela paixão no lume que esmorece na lareira dos signos
complexos e intímos ante a atitude da escrita sempre sobre a pedra

José Gil

(1) George Steiner

(2) Emmanuel Lévinas

(3) Umberto Eco

(4) Leonardo Boff

(5)Henri Atlan

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

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(fotografia de brassai, "torse" , circa 1934)


(a mar)

o que sobe pela chama
tem o aroma de sombra
das palavras, que ondula
no teu corpo, os contornos
dos lentos dedos na profusa
erva doente, as tuas mãos não
conhecem ainda a pele real
onde tudo se funde na visão
dos cegos até a raiz da alma
que nasce
todo o dia

ele é a onda que nos prende

saberei a força do primeiro beijo

José Gil

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

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(fotografia de berenice abbott, retirada )


“Eu vi a luz em um país perdido”

(In Clepsidra, Camilo Pessanha)



Ele é um tigre. O papel da fonte.
entre a água e a folha
se procuro a noite
ninguém fala dele
ocultamente


O país de minhas irmãs suavemente
Meu pai escrevia
Meu irmão escreve

Eu apenas amo tranquilamente
a ponta leve da caneta
na brisa de Leiria
maçã e laranja
formam o seu
pomar

Não sei em que mês ainda estão
O pensamento renasce
com o dia

sei, já sei que ele é o tigre de papel

José Gil

sábado, 3 de setembro de 2011

corpototal 43



(fotografia de rafael navarro, "diptico 26", 1979)


estou no declive como a santa palavra
suspensa por dentro do poema, perdi
as estrelas da garganta, adormeço no teu
seio à tardinha, adolescência e distância

quem não ouve o clamor da deusa azul
no intervalo das sílabas intactas e presentes
como se a língua tocasse o declive e o plano

quem move o corpo a sair da nuvem escura

santa palavra como se tudo ficasse por dentro
e por fora do poema como uma única montanha
as estrelas regressam à adolescência da garganta

José Gil