terça-feira, 10 de junho de 2014

Mãe 5

Que nos espera mãe do outro lado do mar
Frente a praia não sei se sou escrito se escrevo
Um caminho revolucionário quase divino
Na água somos outros os corpos vão e vêem
De um lado para o outro sem pobreza cristalina
Cada pobre dos mais pobres hoje em Portugal
uma bandeira das mães em súplica celestial
Tu és a figueira eu o figo ainda pequeno no
Retábulo a meio das escadas ou no quintal
Sem nada de especial, um coração cozido e tricotado
Bem junto ás ondas do mar com este vento de areia
E palavras frias apesar do sol e da primavera no fim de
Abril –  para Maio marcharemos logo no primeiro dia
 
José Gil

sábado, 17 de maio de 2014

Mãe 3

Ontem fez anos que inauguraram o campo
De concentração do Tarrafal, mãe onde está
Agora uma plantação de girassóis, mas é no
Algarve que começam a aparecer os figos da
Memória de Portimão e da casa – posso voltar a
Escrever na parede caiada um desenho da tua
Coragem, intranquila mãe de nove filhos numa
Sociedade do espectáculo, criar, mãe é resistir e
Resistir é criar – principio simples de todos os
Baloiços, ir e vir e resistir sempre, ontem também
Foi o dia da terra tempo de memória 1953
Obsessão comemorativa em todo o 25 de Abril
 
José Gil

terça-feira, 15 de abril de 2014

Mãe 2


Quem nos governa agora em Abril mãe querida
Para eles é a leve segurança de correrem contra
o tempo em que os cravos em Benfica enchem as
esplanadas a hora da bica e da empada de vitela
até no Mercado querem mandar esquecendo as
ciganas que gritam por um euro todas de negro
 
tomam posse mais novos os políticos defuntos
a revolução não lhes perdoa  a igreja no mesmo
sitio em frente ao Nilo – tábua rasa fica de fora
da Assembleia – todos na rua cantando Grândola
são as vilas morenas do nosso Alentejo e Algarve
onde a revolta não congela agora que chegou o sol
e Lisboa vai sem Troika comer os morangos maduros

José Gil

segunda-feira, 14 de abril de 2014

Cascais 21


a Solange
 
 
Amo o teu húmido clamor de lua
Ofereço-te esta folha branca de papel
Uma flor de falo junto á raiz, é por
ti que escrevo na areia da praia terra
Para que sintas a verde frescura
Sempre adolescente musa de minas
 
Guardo-te como um segredo digital
Entre os continentes e o oceano de letras
Como um cruzeiro um poente para pôr
Bem centrado no umbigo, vibram as flores
Cantando por Paris junto ao Sena, és a
Torre na tua fragilidade de moça alegre
 
Amo as tuas pernas no lugar dos santos
A minha língua se prolonga entre a romã
O Guincho e Cascais esperam-te como eu

quarta-feira, 9 de abril de 2014

Mãe I


Se esse tempo esquecer que é morango
Recordo o vento da luta, passa mais
Um poema sem dia, tento chegar a ti
Com o sol e o mar de Armação de Pêra
 
 
Eu vou chegar a razão de te escrever
Na casa redonda  um pedaço de papel
Junto á janela redonda do terraço para
O mar enorme e eternamente azul e branco
A eternidade do acontecimento, nasci, morango
 
Hoje abro a casa ao silêncio, mãe minha
 
José Gil

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Cascais 21


a Solange
 
 
os poemas nascem como a pele doce das ameixas
o sabor forte das tâmaras, como o deserto
oiço a minha solidão entre folhas de alface
férteis saladas do meu sonho
de Itabira a Cascais é o instante
de um dia límpido e exemplar
 
junto as sementes de linhaça, chia e sesamo
com anona ao café da manhã
saberei o que me espera em Itabira
serei mineiro nesta energia leve
de Cascais
 
a aventura é saber partir logo se chega
ao poema da terra, esse pó divino
que o teu colo lembra
por muito vinho amado
 
José Gil

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Cascais 20


 

(imagem da cidadela de cascais, retirada daqui)

 
a Solange
 
 
Pássaro de fogo para o teu sol de madrugada
No calçadão o dia nasce na cidadela de Cascais
O mar encabelado salta a muralha com força
Encapelado o oceano no teu colo, ave em caracol
Esperando os dedos no céu espelho azul da face
Perco-me a olhar as ondas bravias nos teus seios
Surfa para mim um impulso romântico para rodar
A porta e outra porta e outra porta vegetal como
A soja sobre o prato tropical da fruta com sol magro
 
Avança do outro lado do planeta sem máscara
Pássaro dos meus sonhos em redemoinho de águas
 
Amo os teus lugares e este espaço entre os olhos  

 
José Gil