segunda-feira, 20 de junho de 2016

Poema de amor 32 - O Amor e a morte

Trago  no colo a morte
entre duas linhas infinitas de comboio
nos limites de ferro de Cascais
 
salta a verdade pelas grades dos dedos,
hoje era o dia das tremuras
entre duas linhas infinitas de comboio

plenitude de um epitáfio
junto às cerejas de um repórter de tv

à escala global pouco sabemos da aridez da morte

quanta vida se faz ao espelho!
salta da luz no nitrato
o comboio como sempre passou,
tem um horário que a morte desconhece

Ela ainda o beijou na gare junto ao Sumol
Tocava-se o Chico Fininho

José Gil

Poema de amor 31

Nem o azul vento do oceano
 Nem o portinho abrigado de Armação
Te dirão quanto te admiro

O vento corre na turbulência da
Esplanada da Nilo, entre a razão e a
leveza do café e da empada, há outros
caminhos azuis do Portinho a Portimão

Traz o pão de Santana da Serra e Monchique
Podemos tomar o chá de tília ao 1º de Maio

A casa ficará sempre iluminada pelo pai

Nem o azul da sua ausência, nem o oceano da sua
presença te dirão novos poemas

José Gil

Poema de amor 30

Mãe, é sempre a noite que temos mais medo como quem
apanha amoras e folhas de amoreira na Av. Grão Vasco.
não passa ninguém, não há ruído mas tudo é frio e solitário.
como te explicar o desemprego a crescer na nossa mátria,
mãe – há senhores que guardam relíquias de outro tempo,
é o primeiro de Maio, estamos livres mãe e temos medo.
as casas não se iluminam e a música é alta e clássica

Mãe, temos que ser eruditos, falar das calçadas do sol
ao rato e procurar outros sonhos para esta noite branca.
Lisboa só começa dentro de cinco horas em ponto,
o bicho da seda é um monstro  quando crescemos e o
casulo não é o que desejamos muito menos a borboleta
dos poemas, esse ritmo de imagens em ruptura, umas
com as outras no corpo interior sem espelhos.

José Gil

quarta-feira, 15 de junho de 2016

Domingo chove todo o dia

à Solange

Chove amor aqui no centro do largo, dezoito horas
de saudade de mel e pinhões sobre os mamilos inquietos.
como é gostosa a casa quando chove e as horas passam,
tristes e doces saudades de esperança que agosto seja já.
posso ler um romance e avançar da tardinha com o chá de
cidreira, tantos livros e autores novos por descobrir em toda
a terra, terra ajardinada do teu corpo de égua jovem, os meses
vão passar rápido, só oito meses, com Deus nos seus princípios e Lisboa é
a catedral do tempo, da palavra de mel no teu pescoço, procuro
o seio e a noite cai mais cedo, chove a verdade que arrepia a trovoada
 
há raios no ar amor, vem já.
 
José Gil

quinta-feira, 9 de junho de 2016

Prunus amygdalus

(ao meu amor, Solange, em Itabira de CCLA)
 
o mundo dos justos bem junto à pastelaria Careca
escrevo e bebo o café com o meu neto que brinca
com o palmier, trago ainda no bolso a amêndoa
(Prunus Amygdalus) de ontem, uma imagem do meu Algarve
da ideia de casa do mar que se adapta perfeitamente aos
nossos corpos líquidos
 
Deus sairá do que é bom no mundo dos justos em caminho
de um lado para o outro do mar, felizes entre o peixe
e uma amêndoa
 
abro a casa em armação de pêra doido por ti, entre os
beijos nesta altura de amar uma lição da tarde
 
beijo-te o café e a amêndoa em várias formas,
Prunus Amygdalus
 
José Gil

quarta-feira, 8 de junho de 2016

Alma combinatória

à minha esposa linda e jovem, Solange escritora


há na pedra portuguesa em que me dói pisar
um tanto de gozo e outro de sangue, como o ventre
um desassossego de paixão calado e tímido por ti

há na alma intercontinental em que me deito
um eterno quê de pedra e de fado como se de
reza fosse o meu destino por entre as pernas
resguardando cada um dos meus pecados

toca como as pedras macias todo o corpo quente
de mel 

há na pedra portuguesa em que vive o meu ventre
um luar de Brasil outro de música ou na fresta de uma
pátria repartida na língua bem longa do prazer 

há um mundo tão cobarde em que me perco do 
enamoramento constante em que uma rima ou métrica
é inventada, cada vez mais depressa, cada vez mais lenta
uma alma brava

há em meu corpo um sim sempre presente
que insisto em fazer de minha estrada

ou um não de romãs para mudar tranquilamente 
de estrada da alegria amada

José Gil
 
(revisto a 2 de Janeiro de 2016)

terça-feira, 7 de junho de 2016

Poema 118 de amor

Tangerina

 à minha namorada linda Solange


 
Um escritor cresce com o suor dos defeitos amados
E a sensação do tempo, sempre pouco tempo para
Seleccionar as folhas que o escritor escreve no mato grosso
Da relva da manhã a nascer do ventre erótico da madrugada

Cinco horas para o primeiro comboio de beijos no umbigo
Vou para Praias do Sado de comboio todos os dias
Se não fosse professor seria actor ou poeta tangerina não
Uma laranja mecânica como o filme do amor rápido
à primeira vista, num ritmo de gentileza trocam-se emails
Em Serpa literária terra do húmus que cresce quando cala
A boca o escritor, na tinta que falta e num berro d’água
Assim escrevo não dormindo no teu corpo de gazela, leio,
Lindo quadril de égua selvagem e feliz na floresta e no lago

São as três ocupações do professor e do poeta ler com
Alegria e escrever com consolação abaixo do ventre

Um poeta trabalha no sol energético
Paixão de ar e lua, fogo e água como
Eurípedes e Aristófanes as aves lutam
Contra as regressões o poeta ama a verdade
Pura e sagrada do teatro do vazio poético
O poeta nunca se revela nu, escrever é como
Construir a máscara com ou sem máscara
No rosto do actor que esconde e mostra como pera
Rocha e abóbora no forno todos os dias em jejum
Serei irmão de todos os meus irmãos como o
Azeite e o vinho num sangue puro sem raiz

O escritor canta até doer as mãos e sonha com o seu amor
E sonha com uma mudança no novo ano numa ladeira em
Azulão

O poeta subirá a montanha para ficar limpo em oração
Com a sua namorada esperará pelo Messias

Dezembro/Janeiro - 2008

José Gil