quinta-feira, 28 de setembro de 2017

A fuga da palavra 45

Renda Bordada à Mão

nasce o dia às sete horas, assim começa o tempo
do sol, na corrida há um eixo, a bacia dolorosa, as cruzes
vamos avançar no corpo dado, a ilustração dos teus
seios na omoplata. frutos vermelhos para endoidar a
terra dos ossos rendilhados, ver a paisagem e em movimento
sofrer

trago a dor nova do encantamento, o justo remendo da
osteoporose  ninguém passa na renda bordada pelo poeta
à mão 

um dia sempre novo no caminho, a zagala negra atravessa o
espaço frio, gela a madrugada em que  o escritor descreve
os percursos

foge-me a palavra como as bolinhas do mercúrio no chão
do laboratório, entra a juventude, as moças, os dedos têm
olhinhos na ponta dos dedos à espera do grande porte
chega então o Elenco Negro, a égua de crina pretinha
a galope, música e poesia épica

Oh! África do meu bairro, minha negritude clara na praia
em saudade da Adraga, muda a maré, eis o tempo indelével
África é tudo, o horizonte do novo mundo

veio atrasada  a gazela do meio da manhã por um tempo
de amar, azul o prazer
sentado

José Gil
19-2-2016

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

A fuga da palavra 44

(a meu amor lindo, Solange)


a égua brava da manhã é para montar rapidamente
a trote traz o vento no silêncio, sozinho avança com
a crista magenta vermelha

traz o trabalho de sedução nos olhos, sorri como
ninguém e avança novamente com olhos amêndoa,
no lugar dos labirintos cavalo de botas

chega ao patamar da casa a floresta antiga, flor nova
e rosa negra quero o amor pela casa, a erva dos estábulos
trago o feijão fresco a pedra e a flor colhida agora no
paraíso da fruta e flores. um dia novo - abre o crânio
perfeito

"gosto de imaginar o tempo como um aliado", esse breve
instante em que te amo à distância como indelével,
em que tenho tempo para escrever
sempre a correr
quase a parar o
tempo

José Gil
18-2-2016

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

A fuga da palavra 43


(à minha pretinha querida, Solange)

chega, ave de fogo do outro lado o oriente
ostenta a tua penugem para quem passa no
largo 

ousa o corpo exemplar e original por um sonho
em Itabira

pergunta por mim aos pássaros que já vou a caminho
no oceano que me une a CDA- Carlos Drumond de Andrade

abre devagar as asas das coxas ao toque dos dedos
ergue o beijo

há ainda uma asa que não voa
do meu, do teu coração

chega, ave pretinha a uma casa de amar
de que é feita a substância da tua pele.

José Gil
17-2-2016

A fuga da palavra 42


ao passar o navio guardo-te como uma planta num copo de água
como flor de lilás ou fruto de maracujá, pretinha por fora vermelha
por dentro 

aveludado toco o teu ventre com as folhas e os dedos para dormir
devagar no teu colo tudo guardo com saudade e sem distância

quem diria Santiago do Chile, a terra prometida, os vinhedos,
o mercado, as praias de Vale Paraíso e Punta del Cana

ao passar o navio aproximam-se os pelicanos das rochas onde
esperas o sol  e as grandes ondas do mar

tive medo de perder-te para a água e aqui estás
ao passar o navio, minha flor.

José Gil
17-02-2016

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

A fuga da palavra 41

A Flor de Lilás

(à minha moça linda, Solange)

a flor de lilás da juventude entra no arco bandeira,
quer o mastro fundo, está sol e estrelas, aproxima-se
a primavera, para a salvação do corpo um lugar ilustrado
com folhas simples

trago a espiga do vento, os seios escondidos nas pernas
fechadas para a minha moça, melhor o beijo que o bolo
só fruta para o movimento estudantil

quem espera ainda a origem do corpo selvagem, uma boa
caixa de ar para respirar fundo, um olhar difuso e cruzado
a casa amarela, a moça a janela

José Gil

sexta-feira, 28 de julho de 2017

A fuga da palavra 40

Traz a Ave

(à minha esposa linda sempre, Solange)

traz a ave amor preparada para o mundo
um universo único e exemplar
de terra e cal branca para a casa
à beira do oceano comum

bebe um copo pelas comemorações
quando faltam dois anos de vida

traz as cerejas para o abraço doce
que o corpo esconde a água
no paraíso de terra vegetal
nove horas de espera, sete semanas de paixão
no ouvido secreto de ser eu ou não sou no
subsolo do poema a percorrer o seu labirinto
por um poente nas pernas, a lua cheia

o horizonte conquistado ao pequeno mundo
das coisas simples da vida como namorada
água, música, irmã, amigo, sol, água
o luar  perfeito, o céu incompleto
as manhãs do mundo pequeno.

José Gil

15-2-2016

terça-feira, 11 de julho de 2017

A fuga da palavra 39

O CORPO

(à minha linda pretinha, amor Solange)

o corpo fala um poema devorante
o poeta é um leão, uma ave de rapina
águia vermelha pelos céus diminui
o tamanho do mundo,
por uma pequena peça de roupa
torna-se ladrão, vive em agonia

caminha veloz como uma gazela
é sábado, o poeta está feliz
sabe a armadilha da sedução
ama, devora os seios, o pescoço
por um pilar negro no meio do eixo
norte-sul do corpo, redondas formas
de sentir  um Deus aberto e plural
no barro da terra quando chove
corpo na lama, vestígio da origem
encontra logo a palavra certa

Lisboa fica amuada, a palavra não
lhe apareceu

não guarde o passado que o mundo é
tão pequeno
 
José Gil