sexta-feira, 6 de novembro de 2009

corpototal 21



(trabalho de tracey emin, "Her soft lips touched mine and every thing became hard", 2008)


o poema está a ser magoante
no corpo lívido e raro, a
afirmação da palavra fica no raio
quadrado à hipótese do sujeito estético
magoante a noite em que o poema se prolonga

nada para dizer na folha curva
quem foge não foge dói e canta

José Gil

domingo, 1 de novembro de 2009

corpototal 20



(desenho de tony cragg, "untitled", 1997)


viajo verde no seu corpo simbólico
tiro sortes e divido as terras da lua
onde até a pedra se esfarela
sem cessar

traz-me a andaluzia nos dedos pequenos
a metamorfose dos gomos de laranjeira
falho-te sempre nas certezas humanas
a kura, a tua persúria clara leve a tua
alçaria, o teu encastelamento em flores
islâmicas de primavera, a tua curialização

trago-te as Metamorfoses de Ovidio
os mitos de Faetonte e de Actéon
os Deuses reduzidos a paixões e caprichos
no estado clássico – despe ainda o busto
com os seios negros, modernos e os
braços e as ancas bem rente à cor da terra

José Gil

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

corpototal 19



(pintura de keith tyson, "nature painting", 2006)


ao Constantino


de todo o eixo vegetal do mundo
nasce a glória clara, imensa viagem

hoje berlim, respiração ou pedra, onde
apenas os reflexos da chuva nas cerejas
latinas, o sopro na tua face, a tinta da água
do outro lado da face do espelho vegetal. na
glória incerta dos mamilos onde nada fere a
imperfeição a alegria corre pelo peito amplo
errante como o leite no umbigo – o tempo
passou acordes anéis de noite no mar de s.pedro


José Gil

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

11, 20H



(pintura de will murray, "she's imaginative she's 23 years old she's brilliant she stops traffic", 2007)


a Mar


as laranjas em gestos épicos de sumo
cristalizado na frescura do teu corpo,
nas varandas da linha do horizonte
do casario em que tudo se perde nas
praças da tua cidade e em lisboa no
lugarejo das laranjeiras em sumo simples,
no teu colo onde tudo se ganha no centro
das coxas junto à fonte – a fome do vidro
espelhado – projecta os teus cones no
reflexo húmido da montra os livros e as
suas folhas em casulo – pele na pele, letras
negras na pele negra em sumo de noite

as laranjas rolam no soalho do sonho
em sonho, sonhando que sonho e acordo
fábrica de sonhos para a bela arteira

José Gil

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

corpo em construção 2



(pintura de david bierk, "a eulogy to earth, blue sky", 1997)


bebo o lugar do silêncio na aveia
a inventar outra palavra
com a luta

na erva que agarra a pele quente negra
qual grito que se procura
entre dentes

construindo a casa na pureza azul
e com a infância de lado
areia ou rocha

voa lenta

José Gil

domingo, 11 de outubro de 2009

corpo em construção



(esculturas em vidro de dale chihuly, "b&w persian w/red lips", s/d)


deito as cerejas no umbigo, cor de verniz
os dedos rolam as redondas do corpo em
construção como a casa sobre a rocha

abrem-se as cerejas em palavras de vento

a frescura do calor imaculado sobre a pedra
da mesa longa, o teu corpo dobra-se no lugar
do umbigo e desce e sobe ao sabor da língua
nas cerejas em construção, elegante o corpo
junto à lágrima, avança o umbigo azul onde
quebram os dedos da casa, mão larga e lenta

no olhar do céu azul e cereja e branco como
o corpo envolto no lençol do leito imaculado

José Gil

terça-feira, 22 de setembro de 2009

michael jackson



(trabalho de russell young, "michael jackson motown records office", 2006)


escrevo-te em silêncio, como um pássaro em voo
as palavras são doadas, como um Deus moço

a ansiedade toma-me vivo e choro nas paredes
da casa, foi por destino do barro cinzento junto
à linha, coração urgente, logo de manhã que
medo e o sol vai dourando o meu coração viu
depois no teu colo negro a cruz, fui ter à mesa o teu
copo de vinho nas tábuas deste meu fado e choro
como uma túlipa junto ao corpo e é de morto o seu
olhar , eu te acompanho sempre da lua e do luar

José Gil