domingo, 28 de fevereiro de 2010

corpototal 23



(pintura de patrick caulfield, "girl on terrace", 1971)


amo-te no lugar do jantar
como um poema de coentros
na subtileza da culinária fresca
do verão – olho da janela dos
lugares novos na serra, quem diria
logo ali o mar no vale azul e verde

a tua cabeça fica em movimento no
meu colo como uma tapeçaria de línguas
quentes e carnudas, abro ligeiramente
o poema comprido e amo-te no lugar

procuro depois os dias como flores
uns abertos outros fechados dia e noite

José Gil

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

corpototal 22



(impressão de bruce nauman, "normal desires", 1973"

bato na pedra, é para bater na face
oblíqua da pedra, onde a pedra voa
traz silêncios, ama, onde oblíqua a
vida voa e a tua voz no claustro traz
as ondas da paz – um altar de santos

a pedra na vida passa e fica a face
obliqua sobre os cones negros da
fonte clara, abre as asas para bater as
asas na virtude dos Deuses pesados

canto obliquo do outro lado dos
claustros – só a voz a sombra e o silêncio
fresco, são quinze horas o umbigo abre

José Gil

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

corpototal 21



(trabalho de tracey emin, "Her soft lips touched mine and every thing became hard", 2008)


o poema está a ser magoante
no corpo lívido e raro, a
afirmação da palavra fica no raio
quadrado à hipótese do sujeito estético
magoante a noite em que o poema se prolonga

nada para dizer na folha curva
quem foge não foge dói e canta

José Gil

domingo, 1 de novembro de 2009

corpototal 20



(desenho de tony cragg, "untitled", 1997)


viajo verde no seu corpo simbólico
tiro sortes e divido as terras da lua
onde até a pedra se esfarela
sem cessar

traz-me a andaluzia nos dedos pequenos
a metamorfose dos gomos de laranjeira
falho-te sempre nas certezas humanas
a kura, a tua persúria clara leve a tua
alçaria, o teu encastelamento em flores
islâmicas de primavera, a tua curialização

trago-te as Metamorfoses de Ovidio
os mitos de Faetonte e de Actéon
os Deuses reduzidos a paixões e caprichos
no estado clássico – despe ainda o busto
com os seios negros, modernos e os
braços e as ancas bem rente à cor da terra

José Gil

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

corpototal 19



(pintura de keith tyson, "nature painting", 2006)


ao Constantino


de todo o eixo vegetal do mundo
nasce a glória clara, imensa viagem

hoje berlim, respiração ou pedra, onde
apenas os reflexos da chuva nas cerejas
latinas, o sopro na tua face, a tinta da água
do outro lado da face do espelho vegetal. na
glória incerta dos mamilos onde nada fere a
imperfeição a alegria corre pelo peito amplo
errante como o leite no umbigo – o tempo
passou acordes anéis de noite no mar de s.pedro


José Gil

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

11, 20H



(pintura de will murray, "she's imaginative she's 23 years old she's brilliant she stops traffic", 2007)


a Mar


as laranjas em gestos épicos de sumo
cristalizado na frescura do teu corpo,
nas varandas da linha do horizonte
do casario em que tudo se perde nas
praças da tua cidade e em lisboa no
lugarejo das laranjeiras em sumo simples,
no teu colo onde tudo se ganha no centro
das coxas junto à fonte – a fome do vidro
espelhado – projecta os teus cones no
reflexo húmido da montra os livros e as
suas folhas em casulo – pele na pele, letras
negras na pele negra em sumo de noite

as laranjas rolam no soalho do sonho
em sonho, sonhando que sonho e acordo
fábrica de sonhos para a bela arteira

José Gil

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

corpo em construção 2



(pintura de david bierk, "a eulogy to earth, blue sky", 1997)


bebo o lugar do silêncio na aveia
a inventar outra palavra
com a luta

na erva que agarra a pele quente negra
qual grito que se procura
entre dentes

construindo a casa na pureza azul
e com a infância de lado
areia ou rocha

voa lenta

José Gil