sábado, 19 de janeiro de 2013

Itabira


 (estátua de carlos drummond de andrade, em itabira. fotografia de claudia ligório)

ao meu amor no 1 de Janeiro 2013

não há mar tão perto mas esse mar ao fundo de Minas
Minas não tem mar apenas o teu corpo curvado voando
bem azul, vamos de autobus desde Belo Horizonte são
linhas que se desenham na paisagem seca e dura de
mineiros

não há mar tão perto mas esse mar ao fundo de Minas
onde o carvão ficou tranquilo como a púbis do teu colo
guardo no coração as linhas da tua casa
como um abrigo de passagem

voo entre dois mundos e só sei do amor
nas flores que ficam pelo chão
Carlos Drumond de Andrade nasceu em
Itabira como tu e pergunta
"E agora José?" o que fazer à romã
abre-se todo o mar com o vento, janeiro é assim
sábado chove no teu corpo dentro do meu azul de ouro


José Gil

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Apologia para Domo

(pintura de Jonathan Green, "Geech", 2009)


durmo na folha verde, a causa dos índios
devo permanecer sereno e dono de mim
mesmo até nos sonhos  - de noite ainda
espero outro alguém na mesma relva
gelo, gelo para os dedos da alma – um
partis pris da vida secreta para um poema
em guignol na ambição única da arte
uma arenga poética, uma zanga com
cogitus interruptos a quem vive na
inviolável solidão

 José Gil

segunda-feira, 4 de junho de 2012

corpototal 59


(trabalho de Jaume Plensa, "Untitled" (2006)

"A quem sabe esperar o tempo abre as portas."
(Provérbio Chinês)


dobro o tempo no eixo da mesa, atravesso-te no lugar do umbigo
um poema curto em redor das faces do  relógio, soluço irredutível
mãos  puras e  dormentes no teu regaço enrolam-se  no veludo
do teu florido negro sombra e palma enlaço de ervas e folhas, o
rosto do lábio como o ar na minha língua , espero devagar o passar
do tempo, uma linguagem de escultura com a pele a mostra, desejo
abraçar todo o animal junto à parede da casa, bem na rua onde chove

chovem as palavras e os teus saltos na calçada, é outono e o corpo vivo
as pedras rolam ainda devagarinho do teu jardim como areias sensuais
estamos na estrela, é uma tentativa de gestos  esvaziados de alcatrão

 José Gil

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

corpototal 58



(fotografia de herb ritts, "wrapped torso, los angeles", 1989)


a marca de água como o vento na minha cidade
o ar entre os anjos e os joelhos negros para
regressar à alma, tocamos todos os instrumentos
dois e um sintetizador e a flor com ele à meia noite
um amigo meu chega de viagem num minuto
digo-lhe pouco ou nada mãos a obra batemos as
portas fechadas, digo para dizer como o conceito de
geografia e esquecimento entre uma palavra e um espelho
a negra avança neste momento com todos os contornos
do corpo, conheço os cabelos crespos, as roliças
tremo a marca, o meu silêncio, beijo a voz das palavras
desenho-lhe o umbigo e um pouco mais abaixo com a
língua viajante dos sonhos na confusão do caminho de leite

José Gil

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Apenas a pele



(fotografia de edward weston, "back of nude", 1927)

As tuas palavras fazem-me desaparecer
Um sopro único dos teus seios
Amo-te muito, muito como esta areia solta
No estar atento à materialidade do quotidiano

Trago o sol de Março nestas mãos e ofereço-te
A praia e o mar – o mergulho das letras na palavra

Mais nada apenas a pele

José Gil

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

corpototal 57



(fotografia de marc riboud, "eiffel tower painter", 1953)


escrevo aos que me observam
levanta-te e põe-te de pé
dança aí no meio da mesa
a saia cada vez mais larga
e grande pronta a saltar a
cabeça contra o mar, estende
a mão traz-me a espuma da onda
e nos dedos a certeza que a poesia
está sã, nunca tive segredos azuis
dançamos depois todos no horto
o inverno está a chegar, já não
vaza a saudade, o amor nunca se
escolhe, sei nada, uns calados
para os outros em aparição a lã

José Gil

domingo, 13 de novembro de 2011

corpototal 56



(fotografia de tiziana & gianni baldizzone, 2006)


vamos ser positivos entre as canadianas cinzentas, e negras
o pé no ar, a sala está quase escura vejo a literatura como
o fim do dia a mão arrancando de uma só vez a pele da parede
tudo se descobre como o sangue dos tijolos, o mel do cimento
quente, a volatilidade do fim do dia, desce quando começa, o princípio
do corpo quando não há outro para fazer arrebatador, na voz única
o corpo debruçado ao topo num primeiro plano há ainda tulipas violetas
espalhadas no pau preto, a dureza da madeira incontornável, superior
ao castanho, o perfil selectivo, ondulação, deslizar como um animal
dou o pé ao meu olhar, a mão limpa na parede, vinho escondido nos trilhos
da janela da manhã em istambul casa erguida voa até aqui no mar

José Gil