segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

O amor


(fotografia de ralph gibson, "untitled" (s/d)
 
 
(para Xavier Zarco)
 
 o amor é claro no vento forte
eu toquei o meu sangue com
o teu sangue e com o sangue da lua
numa noite de Fevereiro
 
 
carrego-te como o espelho
bem junto aos joelhos de morango
 
a cozinha ficou aberta com duas sopas
 
 
José Gil

sábado, 19 de janeiro de 2013

Itabira


 (estátua de carlos drummond de andrade, em itabira. fotografia de claudia ligório)

ao meu amor no 1 de Janeiro 2013

não há mar tão perto mas esse mar ao fundo de Minas
Minas não tem mar apenas o teu corpo curvado voando
bem azul, vamos de autobus desde Belo Horizonte são
linhas que se desenham na paisagem seca e dura de
mineiros

não há mar tão perto mas esse mar ao fundo de Minas
onde o carvão ficou tranquilo como a púbis do teu colo
guardo no coração as linhas da tua casa
como um abrigo de passagem

voo entre dois mundos e só sei do amor
nas flores que ficam pelo chão
Carlos Drumond de Andrade nasceu em
Itabira como tu e pergunta
"E agora José?" o que fazer à romã
abre-se todo o mar com o vento, janeiro é assim
sábado chove no teu corpo dentro do meu azul de ouro


José Gil

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Apologia para Domo

(pintura de Jonathan Green, "Geech", 2009)


durmo na folha verde, a causa dos índios
devo permanecer sereno e dono de mim
mesmo até nos sonhos  - de noite ainda
espero outro alguém na mesma relva
gelo, gelo para os dedos da alma – um
partis pris da vida secreta para um poema
em guignol na ambição única da arte
uma arenga poética, uma zanga com
cogitus interruptos a quem vive na
inviolável solidão

 José Gil

segunda-feira, 4 de junho de 2012

corpototal 59


(trabalho de Jaume Plensa, "Untitled" (2006)

"A quem sabe esperar o tempo abre as portas."
(Provérbio Chinês)


dobro o tempo no eixo da mesa, atravesso-te no lugar do umbigo
um poema curto em redor das faces do  relógio, soluço irredutível
mãos  puras e  dormentes no teu regaço enrolam-se  no veludo
do teu florido negro sombra e palma enlaço de ervas e folhas, o
rosto do lábio como o ar na minha língua , espero devagar o passar
do tempo, uma linguagem de escultura com a pele a mostra, desejo
abraçar todo o animal junto à parede da casa, bem na rua onde chove

chovem as palavras e os teus saltos na calçada, é outono e o corpo vivo
as pedras rolam ainda devagarinho do teu jardim como areias sensuais
estamos na estrela, é uma tentativa de gestos  esvaziados de alcatrão

 José Gil

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

corpototal 58



(fotografia de herb ritts, "wrapped torso, los angeles", 1989)


a marca de água como o vento na minha cidade
o ar entre os anjos e os joelhos negros para
regressar à alma, tocamos todos os instrumentos
dois e um sintetizador e a flor com ele à meia noite
um amigo meu chega de viagem num minuto
digo-lhe pouco ou nada mãos a obra batemos as
portas fechadas, digo para dizer como o conceito de
geografia e esquecimento entre uma palavra e um espelho
a negra avança neste momento com todos os contornos
do corpo, conheço os cabelos crespos, as roliças
tremo a marca, o meu silêncio, beijo a voz das palavras
desenho-lhe o umbigo e um pouco mais abaixo com a
língua viajante dos sonhos na confusão do caminho de leite

José Gil

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Apenas a pele



(fotografia de edward weston, "back of nude", 1927)

As tuas palavras fazem-me desaparecer
Um sopro único dos teus seios
Amo-te muito, muito como esta areia solta
No estar atento à materialidade do quotidiano

Trago o sol de Março nestas mãos e ofereço-te
A praia e o mar – o mergulho das letras na palavra

Mais nada apenas a pele

José Gil

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

corpototal 57



(fotografia de marc riboud, "eiffel tower painter", 1953)


escrevo aos que me observam
levanta-te e põe-te de pé
dança aí no meio da mesa
a saia cada vez mais larga
e grande pronta a saltar a
cabeça contra o mar, estende
a mão traz-me a espuma da onda
e nos dedos a certeza que a poesia
está sã, nunca tive segredos azuis
dançamos depois todos no horto
o inverno está a chegar, já não
vaza a saudade, o amor nunca se
escolhe, sei nada, uns calados
para os outros em aparição a lã

José Gil