sábado, 3 de janeiro de 2009

Crash 6: Sevilha



(escultura de sylvie fleury, "pink popcorn", 2008)


Vem do lábio todas as infinitas palavras, as
laranjas, as laranjas de Dezembro, as laranjeiras
em que tudo se perde no aroma das Praças de Sevilha
como um lugarejo de tapas.

Vem do lábio e chega e do lábio parte branda como
as faúlhas no caminho das grandes avenidas. Tudo rebenta
na tua frente, frente aos teus seios em cone de pêra.

Vem do lábio onde a fome do vidro a fome do espelho
espera o teu cabelo crespo, junto à fonte, a paixão é
o grande lago, é claro que todos têm razão, eu
estava a exercer pressão sobre as palavras e as sílabas

a página actual tem a madeira leve onde se escreve crash
com o teu perfume de vento sobre e por dentro das laranjeiras

escrever é uma simplicidade como comer uma laranja
nuvens possíveis no regresso a Lisboa, entre a nuvem e
o cinto da superfície, a textura da casca e suas linhas de vento

caminho errante, o sono não reunido num só nó.

jorge vicente

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Crash 5: arte xáveda



(pintura de richard briggs, "bliss", s/d)


(ao constantino)

As ondas, as ondas, as ondas por dentro do sangue
o azul e branco bem longe do areal, deixo-te este
sol quente nas esplanadas, a areia fina e o barco

o Mar navega com os bois, a arte xáveda, o ilustre senão
a terra inteira, o erro branco, as ondas na
foz do Lis onde nasce o Pedrógão

Poderia ainda fazer um castelo com os teus seios
os mamilos das aves marinhas e dormir lento no
teu colo, saberemos um dia as ervas no doce chá.

José Gil

Praia da Vieira de Leiria 31 de Dezembro de 2008

Crash 4



(são pedro de muel)

Procuro a natureza do acaso as suas flutuações temporárias
acordando com o teu sol no meu rosto onde o Mar entra

a terra é espessa onde dói a rocha da saudade do corpo
amado, abraça amor a rude raiva do repente, a torneada
torneira do tormento no tornozelo que beijo.

Quero um barco! o único barco “Felicidade no Amor”, um
remo à frente e a tua vela, quero o saiote que faz o navio
andar com o mastro ao alto. Quero as saias das ondas
longínquas já brancas batidas depois nas areias do regresso
batendo forte o teu crash onde procuro a tua voz do acaso

falaremos depois do tsunami onde há calor neste Inverno

há asas brancas de metáforas libertadas
há asas brancas de orações libertinas

voo ainda como a águia sem dar lugar ás gaivotas

a minha alma é de paquete rodas no baile da corte
a bombordo a chegar à praia todo o pranto saberei
com o Mar como é Mar da minha vida


Praia de S.Pedro de Moel 30 de Dezembro 2008

José Gil

Crash 3: Ruína



(quadro de mychael barratt, "the dancers", s/d)

(ao Constantino e ao Jorge na ilha paradisíaca)

Escrevo-te a filigrana o seio escuro na camisa vermelha, aberta, como a lua a descer lenta na Parreira de Leiria, no mamilo largo dói a distância da mão não segurando a outra mão nem o lápis dos teus olhos. Como escrever-te. Ganham as palavras voz, na verdade essa é a loucura de um Deus livre e águia.

Escrevo-te o que falo no microfone, rápido, no amor quotidiano, só há pressa. Oiço a tua voz no ouvido que é nesse momento todo o corpo em arrepio. Mar, mar imenso, mar
infinito e se digo só filigrana, a luz faz-se luz nos dedos longos e fortes, revoltados com o telefone nos punhos e no pescoço auricular sensível no seu imenso peso, a voz então salta e pula na avenida de S. Pedro de Moel. Fica palavra selada no silêncio do coração e do seio esquerdo na penumbra do teu nome na parede.

Escrevo-te, coração independente nas coxas como o incêndio de uma loba.

Eu não sou exemplo para ninguém, já deixei de pensar, de dizer, de discutir.

Fechei a boca apenas para um beijo que murmura entre a língua e os teus seios e os dedos. Dói muito o oceano, quase choro, “esta estranha forma” de amar sinto a pulsação.

Nos pés onde toco e acaricio as três arvores do chá. A privação enfurece, sem “ telhado entre ruínas”, crash.

José Gil

Crash 2



(fotografia de gerard uferas, "orphée et euridice de pina bausch, ballet de l'opéra national de paris", s/d)


Procuro a natureza do acaso, o seu íntimo despido
como o cavalo aberto nas suas flutuações temporárias
sob as palavras, as tendências da arte em flor
onde se explica o arapaho(1), a representação
pictórica. Entre dois toques na bola de ping-pong,
a realidade é absurda, obscura, voam no crash as
novas cadeiras na biblioteca suspensa de cerejas,
a estilista corre nua de um lado ao outro do gel
perde-se no vestido longo e encarnado, saltam
ainda os sapatos e a flor de lis com a sua brisa

no palco Pina Bausch com seus braços enlouquecidos

o velho bailarino não cai nem sai, corre

acordando com a luz toda no rosto, cal

procura ainda por dentro do palco dos dias a folha
de chá desta alegria, é sábado, tu sabes

José Gil

(1) Arte dos Arapahos

Crash 1



(quadro de norman ackroyd, "brancaster roads", s/d)


dei à obra da casa um pouco de mim
a reviravolta do coração dos quartos
tudo começa na cama cega dos animais
distintos,

dei um beijo de sol a cada parede em cinzas
onde gelam as pilhas de livros e se escreve
o amor que vai chegar no verão

dei em mim um descuido não saberei mais
nada antes do estio apenas os móveis afastados
da solidão azul e branca

dei-me amanhã a crise dos que sabem e dos
que choram, as cadeiras de Maciel no ar em
carrocel, os líquidos das velas entre janelas

dei a nova prece a proximidade do eixo do mar
como o frio de Dezembro na Estremadura
S. Martinho do Porto e o sol verde nas ondas.

dei-me o salto de uma exposição para a casa
serei apenas o burro o animal inteligente que
vive comigo, bravo nos seus passos redondos
e obedientes com a sombra e a luz

dei-me a lua dos teus braços negros e brilhantes.
Chegamos á estação de Leiria, o peso das malas
novamente, livros e livros , só nos resta a praia

dei-me a saudade da areia – os olhos ficaram brancos -
o olhar ainda no branco movimento da espuma dos dias
traz ovos, colheres, ficou tudo branco à minha volta
crash só o nevoeiro é negro nas ciladas
como voltar atrás.

dei-me o conhecimento, o mapa apenas vos dá
caminhos abstractos, canta comigo junto á lareira
o trem chegou a fronteira sensível do manual escolar

dei-me um lírio branco para passar nos olhos
longe vou dormir e voar sobre o mar aflito

José Gil

Curto 31



(quadro de paula rego, "moon eggs", s/d)


A almas das rugas percorre Paula Rego onde o corpo jovem corre da gravidez e negro o corpo foge do cão negro como em velt literature, a parte onde te escondes a escrever – abandono e escrevo para adormecer entre duas casas de chuva, é sábado toco-te a pele da casa, a pele do regaço. Regresso onde a luz te faz vibrar a chama, atravessas agora a penumbra dos anos 80, no outro lado o edredão branco e o teu corpo negro, brilhante crespo cabelinho onde és a rua da alegria de cidades longínquas, regressa de moto ou de barco, rema o teu corpo com suaves carícias de chocolate quente, cresce para nós na luz branca da tardinha. O escrito comprime o nosso espaço. vamos nus de mota, amor, alternativa a marginal nocturna de Chopin, cão vadio, toca-me com os mamilos ao vento, prolonga-nos, vibro onde falta a luz e a palavra em fogo caminha na tua chama com o comboio de crisântemos e jasmins. escrevo na maior desordem. as ilusões são tão impossíveis como imorais, mesmo quando corro atrás, nas árvores de copa nocturna, allegro, delas cegamente no paredão junto à areia de madrugada, toca-me os seios nas costas e perco a pele, dispo-a e fico com os órgãos todos à luz da luz, vibro o cio do corpo aberto ao creme de chocolate no uivo e na casa. Estou rendido á terra que sabe que eu estou perdido nesta rara, raiva, ruidosa. A tinta do meu computador és tu num incerto movimento são os cristais do ciúme. Quero a terra nova, a sombra fria, mordeu o meu vermelho coração, o drácula espera-me em Sibius na Roménia das minhas ilusões arquitectónicas e os lábios maiores e as línguas sem deixares por isso de ser Deus. Segura-te à estaca do coração negro de uma caixa de fósforos móvel espalhada ao vento como as tuas ancas sobre pequenos pêlos de gente singular. Os lábios acendem novamente o mel.

Estou só no mundo, como sair daqui para ali. tudo se explica, vês aqui a grande máquina de amar. Este poema cresce-me nos cotovelos. Nunca choro, a sombra fica no lugar dos vivos inocentes, não há sodomia sem ser no poder, não há poder nenhum se ninguém morre, apenas um labirinto sensível de uma gelatina com pontos ásperos, apenas um labirinto das portas de sol. Amo-te na íntima agonia plenamente perdido.

Beijo os cones e lanças as garras aos joelhos. Eu contemplo-te e beijo os pés e falo-te.

Ouves ainda o murmúrio na penumbra, sentes os meus dois dedos bem dentro e lentos, revelo-te que vou escrevendo outro poema elo de uma cadeia de vários poemas curtos no seu toque, no seu tempo, escrevo directamente num espasmo curto, num sopro contínuo. Tudo isto é simples como a paixão. Curtos. Sinto na língua os teus crespos no lugar dos fios de ouro, sou o teu palco ou já não fosse o meu amor, a pele, o pêlo, o sangue, o músculo. Abro o caderno dos apontamentos e o computador. A minha caligrafia é infantil como o teu sorriso adulto e maduro. Sorri outra vez. os acasos só são por vezes acasos. Ilustra-me os dedos ao abandono, estar aqui ou não estar. Abre a porta, e digo-te hoje não há sorvetes amor só cinzas dos vivos.

José Gil