domingo, 16 de agosto de 2009

amarante dois



(escultura de dominique blais, "sans titre (melancholia) #2", 2008)


Poemas sobre poemas e prosa de Teixeira de Pascoaes

ao Gonçalo e ao Jorge

todos falamos deliciosamente ao telemóvel, íntimo
no hall dos hipermercados, cheios de uma importância
dominadora como se fossemos os inventores daquele
aparelho "valemos todo o oiro da Califórnia" como um
beijo de luz na alma e eis o teu peito rés espelho quente

"os animais são como circunferências do lago" rodam-te
as pernas em desequilíbrio, a vida é só alma, aparição
perpétua luta, S.Paulo escreveu " Ai de mim, que não faço
o bem que quero, e faço o mal que não quero" imaginar
é apenas ouvir ao longe"(...) "a poesia é a ciência do remoto"
como a estrela sirius a fonte das lágrimas

"A pena é irmã da enxada
a página dum livro é terra semeada" (1)

viverei a harmonia em pleno caos no meio
dos instintos mais ferozes - São João Gatão
ficaria pelo oficio do poeta - a bondade e a beleza

a construção do homem é mais que uma onda

José Gil


(1) O Homem Universal livro raro de Teixeira de Pascoaes, Edição Europa - Lisboa, 1933

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

bragança 6



(imagem tirada daqui)


Bragança a grande, por momentos fecha os
olhos enternecida, o
amor perfeito no colo
e dentro da minha alma cerejas e ginjas
vermelhas como brincos de príncipe e princesa

Lisboa, a grande, por momentos fecha os
ouvidos em Agualva/Cacém/Algueirão
CREL de todos os contentamentos
No Eleven das pernas lavadas em creme

Bebe-me cidade dura no parapeito das flores
De Abrantes a Santarém a terra recuperada
para entrar onde o espaço é nulo e azul

descobre amor ainda outro lugar onde o
Mar seja Mar e a lua se encante no teu colo
Ouve ainda as ondas no limite da areia

José Gil

bragança 5



(fotografia de david drebin, "capri", 2008)


Na palavra latina fingere, os significados de “plasmar, modelar”
e de “imaginar, representar, inventar”
(isto é, “modelar com fantasia”)
podem assumir matizes que vão até ao
“dizer falsamente”, ou seja, até ao conceito de “mentira”...”

bato a pedra na pedra e na neve
como um osso no chão aberto
toco a fissura onde a palavra
nasce ao arrepio da corrente

bato a pedra na cabeça onde o
osso dói a esperança, a cidade
brilha onde humedece o rio
quem caminha na muralha?

só as ancas ao parapeito das
flores onde fica a janela mais
fina, aço cinza sobre a testa

é este o reino das pedras, das
carícias ao sabor do vento de
quem corta o rosto e avança

José Gil

mar



(fotografia de trent parke, "untitled #10 - the seventh wave", 2000)


Poema sobre o poema S. Pedro de Moel (2002) de Constantino Alves, Jorge Vicente (Don Lackewood) (1) e eu.

Dedico o poema re-escrito aos dois camaradas deste poema a 6 mãos




“If someone reports
Something that seems
Crazy listen to him openly”
Peter Elbow,

Writing without teachers



Abre-te mar! Qual pauta de música?
Qual ópera? Pára silêncio metálico, junto á praia.
Abre-te mar, água imensa e ambiente sonoro
Canta rap e bate como a onda
Letra a letra, o rugir dos dentes entre a língua e os lábios carnudos

Abre-te Mar, ao espectáculo do sol
Pauta de sal na muralha
Três poetas andando
Pretinha a sambar na areia
Decorada de missangas
Catedral oca e sensual
Um poema feito de pedaços

Este Mar só tem boca
Em basalto
Ressequido e
monumental

José Gil

[1] In livro www.3poetasemleiria.pt

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

bragança 4



(fotografia de broeke rutger ten, "aaron's leap", 1982)


“A imaginação é mais importante do que o conhecimento.”
Albert Einstein


travo a trave da mesa no copo de vinho
bragança anoitece entre as papoilas, o pó
ainda não chegou tão vermelho como a
dor, entrego-me as sombras dos leitores
sobre o alcatrão da estrada, pela febre de
escrever e contra a fuga, corro, assim
mereço-te sobre as pálpebras cansadas

corri toda a noite nas claras ervas e papoilas
nada separa a fuga da pausa, como quem bebe
na trave dorida da coluna da madrugada

escrevo fugindo à dor, são ossos, a luz da
página a noite pela janela do castelo

José Gil

quinta-feira, 30 de julho de 2009

bragança 3



(quadro de raul diaz, "cubus", s/d)


pelo castelo te embarco de pedra
foge da linha se tens coração
evoca teu corpo de sereia sem mar
só pedra e sol, e norte e estio quente
carrega o teu lugar da árvore branca
mansa terra de adjectivos claros
só estou em ti como presença ausente

os sorrisos surgem no espinhaço
em que te afirmo, como suave, verde

tronco de vaca dócil junto à estrada

José Gil

quarta-feira, 15 de julho de 2009

bragança 2



(imagem do castelo de bragança, retirado daqui)


o castelo de bragança na neve ácida
da noite, os caretos e as máscaras da
ciberarte, uma grande nebulosa sob
os trabalhos de cobre e cestaria na
técnica do imaginário entre a erosão
e a solvência do acto criativo que
teimam em vão estabilizar junto aos
seios da cidade no limite de todos os
lados na volatilização, a entropia azul
dos danos colaterais onde as telas são
o simulacro num dos últimos respiradores

o próprio poema nas calçadas as especiarias
do pensamento – segura-te as âncoras da pedra
em continuidade e o volte face das ancas
a certeza do centro, a incerteza dos teus
subúrbios entre os lábios quentes de
alcatrão – a atmosfera do atelier a
poética sem limites na realidade
virtual como os cones brancos

José Gil