segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

A fuga da palavra 19

(À minha esposa jovem e linda)
 
O amanhecer com chuva escurece o dia. Fecha
A luz da rua às sete e trinta, ando sem ver, caminho,
É uma luta inútil, basta esperar quinze minutos
Para te ver chegar com a luz do afeto ao café
Por um bolinho de bacalhau e uma bica,
Iluminação da minha alma
Seios claros nos lábios grossos, nariz black
Como a neta, à frente os primeiros carros,
A minha alegria e o teu abraço
Deusa de Deus confuso com oração forte.
 
José Gil

A fuga da palavra 18

(à minha mulher linda Solange, pretinha)
 
É o meu, o nosso tempo o que
Se passa hoje na Dinamarca
Das tuas pernas em movimento,
No movimento das minhas
Cruzadas
 
A que distâncias estás, amor
Procuro o mapa dos novos aviões Azul
Prontos a rodar contigo de Belo Horizonte
O corpo desta mulher é um copo de sumo
De laranja fresca e doce
Uma gota de orvalho ela também é
De saias avanças, o fogo está entre nós
E a revolta
 
Como os animais, a nossa vida é pura
Como as línguas do inverno.
Nos joelhos febris
A candeia acende-se
Há luz por todo o lado
Como a cinza de Hiroshima
Ardem os países em guerra.
Que significa isso,
Um corpo ama outro
Corpo e perde-se.
 
José Gil

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

A fuga da palavra 17

Refugiados
 
 
À minha esposa linda, Solange, negrinha
 
És o bebé que morreu na praia
Arame farpado das nossas consciências
Nas novas fronteiras antigos destinos
O choro acompanha-me para dentro
Da Europa
Como a um refugiado,
Começei a escrever como um refugiado
Em fuga da palavra sem destino na
Suécia, Inglaterra ou Alemanha
Até sinto-me um refugiado
Sem bens na Dinamarca, país podre
Pode haver em mim alma de árabe
Procuro-te entre eles, mulher, prazer,
Meu amor gostoso neste carnaval
Da europa, dificil até para Deus
Um Deus Plural, único, mais para uns
Do que para outros
Olho do oceano atlântico
Para me veres no PC-Skype
Pelo celular a minha voz mais perfeita,
Sedutora, tenho, amor o meu mel
A ele te juntas para evitar a morte, só
Resgatados no mediterrâneo
Vem amor, sem torturas, vamos
Fugir da morte grega
Com bolsos de desejo, onde
Guardo o falo para não sentir o
Imcompreensível século XXI
Onde o mar abre para a eternidade
Caminha comigo com água pela cintura
E entra na areia europeia
Com o teu grito nu
Sem voz
Só nudez
Amarga.
 
José Gil

A fuga da palavra 16

Andarilho

À minha linda esposa, Solange

Entras e sais veloz do café, rua café
Café rua, andarilho de todas as madrugadas
Dos meus pesadelos de fronteira entre
As loucuras possíveis, é uma corrida inútil
Por uma moeda, uma bica, a roupa usada

O teu corpo rompe a bolha do cansaço
Como a linha do desejo, o meu conforto
Amo-te todos os dias
Não conheces o andarilho, namorada

José Gil

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

A fuga da palavra 15

À minha namorada linda, Solange


Porque me dão
Estrelas, pão, prazeres
Cavalo, música
Namorada
 
Onde está o vocábulo?
O único, o exemplar
A cicatriz viva
 
Que seja olho de ave
Sem sombras, a luz plena em
Espiral no seu umbigo
A gaiola para guardar a palavra em fuga
Em arame de aço
Brilhante bordado a folhas de alegria em prata.
Diria que era a liberdade em botão de rosa
Como é que deixarão sair?
Quadrada como a mesa dura do amor
Ao longo do corpo líquido e do ruído natural
 
A natureza faz-me chorar a crispação da distância
Das hormonas em fúria
 
Sou um adolescente. Não sou o velho César
Na raiz do pêlo, a tua penugem.
 
José Gil

A fuga da palavra 14

(À minha esposa linda,Solange)
 
Onde se terá metido a palavra?
Com o teu corpo rosáceo de amor nocturno
Voo rente aos mamilos sem falar do efeito surpresa,
Cabelo avermelhado junto ao céu,
Estrelas avermelhadas,
Cicatriz na carne,
A casa de cera para a palavra em fuga.
Não mexo
As ancas no suporte da mesa,
A palavra sabe o prazer da morte.
Na sala ampla, um dia de cada vez, dias felizes,
Foge, como atrás dela, onde perdi o rasto.
 
Alguém se foi
 

José Gil


 

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

A fuga da palavra 13

(à minha mulher linda, Solange)
 
 
Que distância tem o lugar dos afectos
Um catavento de corpos a dançar na sala
Por uma palavra justa em cada secreto ouvido
Vamos todos procurar as letras dos sentimentos
Entre letras novas e usadas
 
Um baile, circo da lua na noite das tuas ancas
Em flor
Descobre-me essa palavra em fuga tão necessitada
De um exemplar e única ternura de canção,
Sobe as botas altas até onde espero nos filmes
A tela tem um vocábulo fora do dizer vegetal
Um leão no mato grosso, uma fúria de vencer
O mundo selvagem do teu flanco, pretinha, por aqui
Ninguém desiste de encontrar no labirinto a palavra
Entra o ferro vertical ao dorso do animal, a espada
Por um madeiro vertical ao corpo
 
O animal foge, já parece uma égua em fogo
Por um novo ossobuco, vence o desagravo , amor
O gás que vai projectar o objecto no espaço sob o
Atântico
 
Caminhamos por uma visão aérea do corpo deitado
Na planicie ampla  e verde do chá
 
Desenho-te agora figura de cavalo na pesquisa da palavra
Encosta o teu ombro no meu, o traço vou iniciar na madeira
Qual tela para firmar as sombras dos músculos, as variantes
Anatómicas da égua puro sangue, a garupa, as espáduas, a crina
Vermelha como o teu cabelo, os flancos, as doces coxas, olha-me
Sensual e melancólica por causa da distância. Saberei
Que és a minha negra, saberemos amor depois despir a
Pele – tenho a certeza que te conheço por dentro, no
Momento exacto da montaria do Alentejo tinto
Faz sol e é janeiro, não faz frio, estou cego, beijo-te nos labios,
A natureza é a verdadeira fábrica da nudez dos tablets
 
Uma coisa para cada cidade,
 
José Gil