sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

corpototal 2



(pintura de colin middleton, "girl with a sunflower", s/d)


o breve corpo que nos separa o oceano ou a prata
contra a terra batida no sangue, por um corredor
de paz onde a pele estica, neste chão, dobra o corpo
contra o meu, no túnel por onde ainda não passam os
gemidos das palavras, um felino, queres outras, vou
caminhando cego com os olhos nos pés, não há ruínas
hoje na minha memória, eis o mar do pêlo escuro, ri
com as obras novas do corpo incendiado, os seios escuros
os cones de natas, o fogo da moça amada, o dia é cheio
de águas e águias transparentes, traz o breviário, vamos

José Gil

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Corpototal 1



(pintura de yoakim bélanger, "l'espace humain III", s/d)


uma lira na lua guarda o corpo amado
e dança perto das grandes chuvas, dança

a sereia transforma-se negra do palácio

lhe aceno, sobe a figueira, sobe alto o povo
se abeira e as janelas são poucas, nem um grito
nem uma respiração a moça preta linda linda
sobe a cova da mora e ainda os cones espreitam
os sorrisos da sombra ela avança na caneta
transparente do poeta, brilha o corpo, salta o leite

José Gil

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

como se chama este poema 26



(pintura de eugène louis boudin, "le havre, le bassin du commerce", 1891)


Partir, parte a crosta da pátria

“mãe vim só para te ver a vela"
a noite vela por todos os barcos
e na sua alma guarda o outono
que não tem volta
de oculta este inverno tem mais
pobres que folhas na malha branca
levamos a correr “cidade minha”
bosque meu “louvo (…) a nascida
no morro Cara de Cão [1]” o silêncio é
peso de Deus

a lesma e o muro descem na barba rala
do poema no poente ao dragoeiro
entre azinheiras bichosas que a terra
recebe e as árvores nascem transparentes

José Gil

[1] Manuel Bandeira

como se chama este poema 25



(pintura de paul césar helleu, "portrait of a young woman", s/d)


amo-te das flores de amendoeira do
terraço da minha escola
amo-te no vasto branco, a crise das
luzes e das imagens
dos blocos de cal na lanterna mágica
de Siza Vieira
uma escola em forma de veleiro,
estilo de vida de um lápis
em intuição abstracta, imagiologia, o
absolutismo do real

"sinto muito" a clareza do estilo que
regula a circular
estanque a circular do circulo
luminoso que estingue o astro
que regula a última circular e tudo
contradiz em circulo de ópera
violoncelos, violinos, palavras
sonoras como imagens
ilhas, ilhotas, atóis, muralhas de
lava, namorados

José Gil

domingo, 22 de fevereiro de 2009

como se chama este poema 24



(fotografia de kenro izu, "#1155B", s/d)


abre-se a porta de alconchel, à espera da água

a história dessa figura nebulosa, era o momento em que ela
sem olhos e com a face no teu colo decide cobrir o altar de
pedra branca – um pelicano – o viajante entre a pele e a
textura da pele, um agudo gemido feminino e felino arcaizante

“Alentejo não tem sombra / senão a que vem do céu” [1]

linda romeira, a saia levava em cerâmica pífia na planura
na atracção da superfície numa escadaria de sol, rente às veias
escrita de atenuada por montículos irregulares dos teus seios
no vasto lençol de água o povo uniu as pernas num tempo vazio


José Gil


[1] Mário Ventura

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

como se chama este poema 23



(pintura de wilson henry irvine, "lois reading", s/d)


"Certa palavra dorme na sombra.
de um livro raro.
Como desencantá-la?
É a senha da vida
a senha do mundo.
Vou procurá-la..."

CDA.


na linha do horizonte a acidez das palavras perde o esmalte da pele

toca, toca-te onde a carne ganha a febre dos frutos silvestres, que se
passa entre as palavras citadinas e a sua sombra, bebe-me
alguém pensará o teu futuro por ti

é este o pulmão dos insectos.
o voo da carícias.
sopro-te nas pernas neste principio de noite

inextinguível o tronco se alimenta do olhar quente

é aqui meu amor que a seda te envolve do brilho
abres o lugar maior objectividade máxima independência
mais horas na sublimação do mundo próximo êxito junto
centro do umbigo, desde jovem querias ter mais peito
agora o cone cresce no mamilo da língua de leite

digo para dizer este corpo, o meu corpo, o teu corpo

José Gil

como se chama este poema 22



(pintura de leon adolphe auguste belly, "the sinai desert", 1856)


as palavras são conhecidas pelos frutos que criam
“as viagens não existem, são uma ilusão do espirito" (1)

não há vivalma neste poema – uma cerimónia de
silêncio e pausas pesadas e cortantes de frio, o ramo
de flores silvestres fica bem no edredom branco do
teu corpo uma grande golada da “água de sala”
numa vaga de neblina entrando pela janela com um
arco de condor, chega depois tudo é fácil e transparente
como as jarras da sala junto ao vão das sacadas

fica deitada pelas mesas o destino traça o outro lado

o navio parte em direcção a Darwin não te esqueças


José Gil

(1)ROY, Claude - Le Journal des Voyages