terça-feira, 11 de julho de 2017

A fuga da palavra 39

O CORPO

(à minha linda pretinha, amor Solange)

o corpo fala um poema devorante
o poeta é um leão, uma ave de rapina
águia vermelha pelos céus diminui
o tamanho do mundo,
por uma pequena peça de roupa
torna-se ladrão, vive em agonia

caminha veloz como uma gazela
é sábado, o poeta está feliz
sabe a armadilha da sedução
ama, devora os seios, o pescoço
por um pilar negro no meio do eixo
norte-sul do corpo, redondas formas
de sentir  um Deus aberto e plural
no barro da terra quando chove
corpo na lama, vestígio da origem
encontra logo a palavra certa

Lisboa fica amuada, a palavra não
lhe apareceu

não guarde o passado que o mundo é
tão pequeno
 
José Gil

terça-feira, 27 de junho de 2017

A fuga da palavra 38

Obscura Luz - Lição de Tango

a Astor Piazzola
à minha esposa linda que tb conhece Carlos Drummond

"O MUNDO É GRANDE

O mundo é grande e cabe
nesta janela sobre o mar.
O mar é grande e cabe
na cama e no colchão de amar.
O amor é grande e cabe
no breve espaço de beijar."
                                                 Carlos Drummond de Andrade

obscura luz a que leio para ouvir a variação
do colchão do amor, é a regra da manhã
devagar dança o tango deitada, oiço os
campos de batalha e sozinha bailas
maçãs cruas na pele, liso leite de burra
no rosto para dar beleza à pretinha branca
de Minas, minério puro sem pó seco para mim
meu luar do grande mundo, dança devagar as
fantasias, o mar é grande, procuro o vocábulo ou
a palavra justa de beijar

fugiu-me manhã cedo pela hora do café, quebra de
pagina e lá vai ela, a vagabunda, dos dias sem sol limpo
escondida nas nuvens negras

vem por momentos um sol claro, o céu por instantes aberto
o suor da noite fria, lê amor, oiço as tuas ancas no relógio à
solta como os cabelos à chuva, um lugar para cantar os teus olhos

lição de Tango para dois corpos nus e sapatos brilhantes de verniz
avanças cozinheira de fantasias de carvão, complexo eixo
norte-sul, uma Deusa Guerreira contra um piolho da água estagnada
do vento, azeite puro, cabeça pequena

quantas ondas tem o oceano do colchão de amar? vamos, vamos
abrilhantar as ondas do teu corpo

vou aquecendo o coração até Agosto, não se pode deixar esfriar a terra
do amor vivo - corpo sobre o nu lençol de linho, a casa nova, o xadrez
jovem da saia em xadrez verde e branco, plissada, só com uma prega
baton vermelho no lugar sensato, baloiça a porta ao som de Piazzola
é o Chile em saudade

mão que segura o império, bastão real, fica com a marca dos lábios
violento tocar da loiça antiga.

José Gil
14-2-2016

quinta-feira, 8 de junho de 2017

A fuga da palavra 37

Fregueses

(à minha pretinha linda, Solange)

estou a escrever na freguesia de Águas Livres
a minha memória próxima, a minha casa aberta
intercontinental - o comboio na estação da Damaia,

marcho no trilho dos fregueses que recuperam
a esperança por descobrir no jardim, no meio
da floresta de prédios e barracas

avanço cedo às sete horas pelo escuro para preparar
os músculos vegetais do teu corpo, é o rosto mais
claro que amo até aos seios fartos que seguro

chuva de sentimentos aí no verão de Itabira

como o queque e bebo a bica por um dia acordado
e assertivo, a fome de pele, vibra devagar o teu lugar
por mais um dia de sol em Minas
aqui chove, é Fevereiro

chegam as flores primárias é o sinal do andar das horas
sem relógio, perco o meu olhar no teu, sei que não és
tu que hoje entras na porta com o teu amor matinal

chegou o malmequer, cintura fina, olhos castanhos

procuro no teu ventre o luar,  amor, na lua fotogénica
entre as almas. gosto tanto do teu sorriso, vem como
o amor perfeito junto da rosa negra, o cravo e a geringonça

vem na manhã de Agosto no Aeroporto General Humberto 
Delgado para chegares onde se mata a saudade e se constrói
o dia feliz, memorial centenário, espectacular como a
tangerina das vindimas.
 
José Gil

quarta-feira, 24 de maio de 2017

A fuga da palavra 36

(à minha esposa jovem e linda, Solange)

chegam as flores na chuva miudinha às oito e trinta
já tenho uma hora de marcha, batem-me no rosto
os pingos leves como carícias e avanço pela floresta
até descobrir o leão preto. pode-se ter perdido de medo
como a palavra e outros animais mais pequenos

toda a rua é rápida de manhã cedo, como o silêncio que
não tem pegado a palavra na língua. será esta? não a
encontro no jardim

chega outra flor de cabelo maior que o leão, cor magenta
vermelha como o sol nas noites de verão junto aos piratas

toco os teus seios como rosas nos meus dedos, pena de
pavão leve para acariciar os mamilos, rodo, os meus dedos
de doce de moça

os cones crescem rosados como a aflição da chuva contínua
bebe amor agora o vinho Piriquita

desenho os teus lábios, sublinho a violeta no teu rosto claro
é verão aí, a fuga da palavra é noticia
regressa amor como o tempo e as novas flores, pretinha, com
as virtudes do inverno europeu o templo claro e o conventinho
escuro e sagrado para a minha língua, ergue a maravilha
quando passas a porta e entra.


José Gil

quinta-feira, 27 de abril de 2017

A fuga da palavra 35

(a meu amor, pretinha Solange)

a água vem na estrada, a estrela fica ao fundo
chove saudade na rua, vai o inverno para a
primavera no eixo verde contigo

avança na calçada, pedra preta pedra branca
gostas de dançar, choro a cada passo uma 
cereja do Fundão

abre a porta do quarto, estou aí com esperança
onde tu tocas há um lugar vegetal e verde
já no território da pedra em fuga ficas derrotada
o teu corpo coberto de cerejas vermelhas cor do 
cabelo, em cada instante magenta

deste lado introvertido, envelheci à espera 

a égua vem na estrada da árvore
da felicidade
antes de passar pela mágica Itabira de
Carlos Drumond de Andrade, meu querido pai
inspirador de Minas
como o barco de Ítaca, a sombra de palácios
na Cova da Moura, a casa, castelo bem ao alto

e descubro a relva nova de cada milagre
via sacra de perímetro em perímetro
vivemos em folhas simples, tatuagens de pele
recato do colo do corpo em seu abafo
toco-te feliz a pele no ombro, doçura
veloz é o tempo que te cruzo

José Gil
(9 de Fevereiro 2016)

quinta-feira, 13 de abril de 2017

A fuga da palavra 34

O Arsenal

(à Solange, meu amor)


o arsenal de flores traz os barcos até à maré baixa
do teu ventre, traz folhas de amor para o Outono
onde procuro no silêncio a sua vontade
e tenho tudo e as sementes da tua sede
para voar devagarinho sobre a casa e o lar
da tua terra mineira onde o cristal é Ouro

bebe, amor, as palavras 


José Gil

sexta-feira, 31 de março de 2017

A fuga da palavra 33


O Mesmo e o outro

(à minha esposa com muita saudade, Solange)

falando na alteridade da água sobre o mármore do inverno,
o signo da identidade,  a essência da poesia e da verdade,
mestre da natureza o poeta pinta a casa que tem desde a
infância toda para si

e a palavra que fugiu falsa sobre a espada do amor eterno
nas folhas de saudade que caem da árvore castanhas
com o vento e a chuva, tocam o teu umbigo

um outro nome que o seu,
o outro que seja sempre língua

a poesia é sempre linguagem.

José Gil