quarta-feira, 24 de maio de 2017

A fuga da palavra 36

(à minha esposa jovem e linda, Solange)

chegam as flores na chuva miudinha às oito e trinta
já tenho uma hora de marcha, batem-me no rosto
os pingos leves como carícias e avanço pela floresta
até descobrir o leão preto. pode-se ter perdido de medo
como a palavra e outros animais mais pequenos

toda a rua é rápida de manhã cedo, como o silêncio que
não tem pegado a palavra na língua. será esta? não a
encontro no jardim

chega outra flor de cabelo maior que o leão, cor magenta
vermelha como o sol nas noites de verão junto aos piratas

toco os teus seios como rosas nos meus dedos, pena de
pavão leve para acariciar os mamilos, rodo, os meus dedos
de doce de moça

os cones crescem rosados como a aflição da chuva contínua
bebe amor agora o vinho Piriquita

desenho os teus lábios, sublinho a violeta no teu rosto claro
é verão aí, a fuga da palavra é noticia
regressa amor como o tempo e as novas flores, pretinha, com
as virtudes do inverno europeu o templo claro e o conventinho
escuro e sagrado para a minha língua, ergue a maravilha
quando passas a porta e entra.


José Gil

quinta-feira, 27 de abril de 2017

A fuga da palavra 35

(a meu amor, pretinha Solange)

a água vem na estrada, a estrela fica ao fundo
chove saudade na rua, vai o inverno para a
primavera no eixo verde contigo

avança na calçada, pedra preta pedra branca
gostas de dançar, choro a cada passo uma 
cereja do Fundão

abre a porta do quarto, estou aí com esperança
onde tu tocas há um lugar vegetal e verde
já no território da pedra em fuga ficas derrotada
o teu corpo coberto de cerejas vermelhas cor do 
cabelo, em cada instante magenta

deste lado introvertido, envelheci à espera 

a égua vem na estrada da árvore
da felicidade
antes de passar pela mágica Itabira de
Carlos Drumond de Andrade, meu querido pai
inspirador de Minas
como o barco de Ítaca, a sombra de palácios
na Cova da Moura, a casa, castelo bem ao alto

e descubro a relva nova de cada milagre
via sacra de perímetro em perímetro
vivemos em folhas simples, tatuagens de pele
recato do colo do corpo em seu abafo
toco-te feliz a pele no ombro, doçura
veloz é o tempo que te cruzo

José Gil
(9 de Fevereiro 2016)

quinta-feira, 13 de abril de 2017

A fuga da palavra 34

O Arsenal

(à Solange, meu amor)


o arsenal de flores traz os barcos até à maré baixa
do teu ventre, traz folhas de amor para o Outono
onde procuro no silêncio a sua vontade
e tenho tudo e as sementes da tua sede
para voar devagarinho sobre a casa e o lar
da tua terra mineira onde o cristal é Ouro

bebe, amor, as palavras 


José Gil

sexta-feira, 31 de março de 2017

A fuga da palavra 33


O Mesmo e o outro

(à minha esposa com muita saudade, Solange)

falando na alteridade da água sobre o mármore do inverno,
o signo da identidade,  a essência da poesia e da verdade,
mestre da natureza o poeta pinta a casa que tem desde a
infância toda para si

e a palavra que fugiu falsa sobre a espada do amor eterno
nas folhas de saudade que caem da árvore castanhas
com o vento e a chuva, tocam o teu umbigo

um outro nome que o seu,
o outro que seja sempre língua

a poesia é sempre linguagem.

José Gil

quarta-feira, 22 de março de 2017

a fuga da palavra 32

(à Solange, meu amor divino)


abre o olhar como as flores de tília
as plantas que salvam o mundo,
procura as folhas e a água quente
por um momento de paz
por um instante de esperança

vai passar a guerra como dizem os outros,
um tempo mágico da tília verde
um tempo novo para fazer
a terra dos líquidos comprimidos.
quem espera o osso, a osteopatia,
o ventre liso da batalha, a terra
queimada por esses países fora

um oceano vai nascer, não vai faltar a
água aos seios vermelhos do amor,
oceano fértil onde vive a vagem verde
como toda a natureza na primavera,
os grandes animais, o grande porte

caiados de castanho e branco claro.

José Gil

a fuga da palavra 31: pomba

Pomba


voa pomba entre as laranjeiras de Sevilha
num lugar de fertilização do enamoramento,
os lentos movimentos da origem da natureza
urbana pela selecção das espécies

avançamos, é inverno e o frio não dobra as
páginas do livro

avança, pomba no delírio, carroça poente a
este poema com as suas éguas do sobrado,
as casas estão mascaradas de alegria, a pomba
ri no rio do seu carnaval da carne
a delicia dos favos de mel

são os rios as fontes de benfica, os dias descansados,
o perfume encanta o cabelo magenta vermelho,
as pernas esguias e cruzadas no colo
no coração invisivel dos dedos da
pomba de mel.

José Gil

terça-feira, 21 de março de 2017

A fuga da palavra 30: o pequeno jogo

(à minha mulher pretinha linda, Solange)

O pequeno jogo




o pequeno jogo traz-te no pequeno barco que chega a Leixões, quantos milhares,
meu amor para descer o Douro entre o vinho, Trás-os-montes e o Porto, as escritas
do norte, quero-te branca neste mundo de mulatas a dançar nos palcos de rua,
Carnaval único de carne pura e comida justa

em cada província, os lábios tremem no armário aqui fechado em casa, o céu azul
que pinto da janela: o meu anjo se tu quiseres. telefono,  é sábado amor e voo sem
sair de casa, a pouco e pouco adormeço. vamos.


José Gil