quarta-feira, 22 de março de 2017

a fuga da palavra 32

(à Solange, meu amor divino)


abre o olhar como as flores de tília
as plantas que salvam o mundo,
procura as folhas e a água quente
por um momento de paz
por um instante de esperança

vai passar a guerra como dizem os outros,
um tempo mágico da tília verde
um tempo novo para fazer
a terra dos líquidos comprimidos.
quem espera o osso, a osteopatia,
o ventre liso da batalha, a terra
queimada por esses países fora

um oceano vai nascer, não vai faltar a
água aos seios vermelhos do amor,
oceano fértil onde vive a vagem verde
como toda a natureza na primavera,
os grandes animais, o grande porte

caiados de castanho e branco claro.

José Gil

a fuga da palavra 31: pomba

Pomba


voa pomba entre as laranjeiras de Sevilha
num lugar de fertilização do enamoramento,
os lentos movimentos da origem da natureza
urbana pela selecção das espécies

avançamos, é inverno e o frio não dobra as
páginas do livro

avança, pomba no delírio, carroça poente a
este poema com as suas éguas do sobrado,
as casas estão mascaradas de alegria, a pomba
ri no rio do seu carnaval da carne
a delicia dos favos de mel

são os rios as fontes de benfica, os dias descansados,
o perfume encanta o cabelo magenta vermelho,
as pernas esguias e cruzadas no colo
no coração invisivel dos dedos da
pomba de mel.

José Gil

terça-feira, 21 de março de 2017

A fuga da palavra 30: o pequeno jogo

(à minha mulher pretinha linda, Solange)

O pequeno jogo




o pequeno jogo traz-te no pequeno barco que chega a Leixões, quantos milhares,
meu amor para descer o Douro entre o vinho, Trás-os-montes e o Porto, as escritas
do norte, quero-te branca neste mundo de mulatas a dançar nos palcos de rua,
Carnaval único de carne pura e comida justa

em cada província, os lábios tremem no armário aqui fechado em casa, o céu azul
que pinto da janela: o meu anjo se tu quiseres. telefono,  é sábado amor e voo sem
sair de casa, a pouco e pouco adormeço. vamos.


José Gil

sexta-feira, 17 de março de 2017

a fuga da palavra 29: abre devagar a asa

(a meu amor lindo, Solange)

abre devagar a asa, no contorno do desenho
a rosa fica a sombra a cinza de todo o milagre
do mundo

nascemos lentamente de uma só vez, por um
só soluço e choro a respiração profunda da vida

vamos por este prazer e o outro escrevendo
o que ultrapassa a palavra em fuga

José Gil

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

a fuga da palavra 28

Perfume

(para a minha pretinha mulher, Solange)


as rosas do alcatrão num quente e leve agosto,
inspiração do futuro rumo a um verão refrescante,
a atmosfera da noite para abrir asas e voar

tão jovem é a tua pele, corpo em movimento, estátua
um dedo de conversa, o amor pleno na estrada da agonia
um dia claro e frio, a polpa da vida selvagem

vamos, vais pelo momento do encontro, o dia feliz
a atravessar a terra de barro, as lacunas da rua e do
travesseiro, o corpo rodado por uma hora de perfume 
as ancas relativas à flor do paraíso
uma casa aberta
um tempo novo

atravesso o teu rio claro, o teu umbigo de sangue
a lua nova na montanha, a estrela branca no ar
por um céu magnifico

está frio, um arco de vagabundos, um olhar 
sobre a terra desviada do ventre
onde corre a palavra pela língua
vermelha

José Gil

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

a fuga da palavra 27

(à minha esposa querida, Solange)

dos campos de chá até ti, verde o teu ventre rente às folhas
renova-se a paz dos dedos

Emilia Kamvisi, a grega salvou o bebé Sírio da morte
na ilha de Lesbos, uma das mais bonitas e trágicas da
Europa.

fugiu-lhe uma palavra a Emilia, 85 anos de alimentos e
abafos para os outros por uma causa, está frio, gelo, fome

transversal ao amor como sonhar com este pesadelo,
divina lucidez da acção livre

numa Europa inquinada de revoluções contrárias,
um tempo novo para organizar as ruínas e as rochas
do mar em que te amo. Não é a Sicília, amor, mas podia ser

José Gil

a fuga da palavra 26

Rio das Maçãs

(à minha esposa linda,linda, Solange)

O "rio das maçãs" abre-se junto ao Palácio da Vila,
a ruína humana do Hotel Neto como um nó histórico,
Sintra para correspondência, Rua Conselheiro Segurado,
os prados e os vérgeis que outrora circundavam o hotel
onde Ferreira de Castro escrevia

Fui à Praia Grande em Janeiro do ano passado,
fugi por medo do mar, terá sido o mesmo motivo
da palavra justa

José Gil