quinta-feira, 21 de setembro de 2017

A fuga da palavra 44

(a meu amor lindo, Solange)


a égua brava da manhã é para montar rapidamente
a trote traz o vento no silêncio, sozinho avança com
a crista magenta vermelha

traz o trabalho de sedução nos olhos, sorri como
ninguém e avança novamente com olhos amêndoa,
no lugar dos labirintos cavalo de botas

chega ao patamar da casa a floresta antiga, flor nova
e rosa negra quero o amor pela casa, a erva dos estábulos
trago o feijão fresco a pedra e a flor colhida agora no
paraíso da fruta e flores. um dia novo - abre o crânio
perfeito

"gosto de imaginar o tempo como um aliado", esse breve
instante em que te amo à distância como indelével,
em que tenho tempo para escrever
sempre a correr
quase a parar o
tempo

José Gil
18-2-2016

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

A fuga da palavra 43


(à minha pretinha querida, Solange)

chega, ave de fogo do outro lado o oriente
ostenta a tua penugem para quem passa no
largo 

ousa o corpo exemplar e original por um sonho
em Itabira

pergunta por mim aos pássaros que já vou a caminho
no oceano que me une a CDA- Carlos Drumond de Andrade

abre devagar as asas das coxas ao toque dos dedos
ergue o beijo

há ainda uma asa que não voa
do meu, do teu coração

chega, ave pretinha a uma casa de amar
de que é feita a substância da tua pele.

José Gil
17-2-2016

A fuga da palavra 42


ao passar o navio guardo-te como uma planta num copo de água
como flor de lilás ou fruto de maracujá, pretinha por fora vermelha
por dentro 

aveludado toco o teu ventre com as folhas e os dedos para dormir
devagar no teu colo tudo guardo com saudade e sem distância

quem diria Santiago do Chile, a terra prometida, os vinhedos,
o mercado, as praias de Vale Paraíso e Punta del Cana

ao passar o navio aproximam-se os pelicanos das rochas onde
esperas o sol  e as grandes ondas do mar

tive medo de perder-te para a água e aqui estás
ao passar o navio, minha flor.

José Gil
17-02-2016

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

A fuga da palavra 41

A Flor de Lilás

(à minha moça linda, Solange)

a flor de lilás da juventude entra no arco bandeira,
quer o mastro fundo, está sol e estrelas, aproxima-se
a primavera, para a salvação do corpo um lugar ilustrado
com folhas simples

trago a espiga do vento, os seios escondidos nas pernas
fechadas para a minha moça, melhor o beijo que o bolo
só fruta para o movimento estudantil

quem espera ainda a origem do corpo selvagem, uma boa
caixa de ar para respirar fundo, um olhar difuso e cruzado
a casa amarela, a moça a janela

José Gil

sexta-feira, 28 de julho de 2017

A fuga da palavra 40

Traz a Ave

(à minha esposa linda sempre, Solange)

traz a ave amor preparada para o mundo
um universo único e exemplar
de terra e cal branca para a casa
à beira do oceano comum

bebe um copo pelas comemorações
quando faltam dois anos de vida

traz as cerejas para o abraço doce
que o corpo esconde a água
no paraíso de terra vegetal
nove horas de espera, sete semanas de paixão
no ouvido secreto de ser eu ou não sou no
subsolo do poema a percorrer o seu labirinto
por um poente nas pernas, a lua cheia

o horizonte conquistado ao pequeno mundo
das coisas simples da vida como namorada
água, música, irmã, amigo, sol, água
o luar  perfeito, o céu incompleto
as manhãs do mundo pequeno.

José Gil

15-2-2016

terça-feira, 11 de julho de 2017

A fuga da palavra 39

O CORPO

(à minha linda pretinha, amor Solange)

o corpo fala um poema devorante
o poeta é um leão, uma ave de rapina
águia vermelha pelos céus diminui
o tamanho do mundo,
por uma pequena peça de roupa
torna-se ladrão, vive em agonia

caminha veloz como uma gazela
é sábado, o poeta está feliz
sabe a armadilha da sedução
ama, devora os seios, o pescoço
por um pilar negro no meio do eixo
norte-sul do corpo, redondas formas
de sentir  um Deus aberto e plural
no barro da terra quando chove
corpo na lama, vestígio da origem
encontra logo a palavra certa

Lisboa fica amuada, a palavra não
lhe apareceu

não guarde o passado que o mundo é
tão pequeno
 
José Gil

terça-feira, 27 de junho de 2017

A fuga da palavra 38

Obscura Luz - Lição de Tango

a Astor Piazzola
à minha esposa linda que tb conhece Carlos Drummond

"O MUNDO É GRANDE

O mundo é grande e cabe
nesta janela sobre o mar.
O mar é grande e cabe
na cama e no colchão de amar.
O amor é grande e cabe
no breve espaço de beijar."
                                                 Carlos Drummond de Andrade

obscura luz a que leio para ouvir a variação
do colchão do amor, é a regra da manhã
devagar dança o tango deitada, oiço os
campos de batalha e sozinha bailas
maçãs cruas na pele, liso leite de burra
no rosto para dar beleza à pretinha branca
de Minas, minério puro sem pó seco para mim
meu luar do grande mundo, dança devagar as
fantasias, o mar é grande, procuro o vocábulo ou
a palavra justa de beijar

fugiu-me manhã cedo pela hora do café, quebra de
pagina e lá vai ela, a vagabunda, dos dias sem sol limpo
escondida nas nuvens negras

vem por momentos um sol claro, o céu por instantes aberto
o suor da noite fria, lê amor, oiço as tuas ancas no relógio à
solta como os cabelos à chuva, um lugar para cantar os teus olhos

lição de Tango para dois corpos nus e sapatos brilhantes de verniz
avanças cozinheira de fantasias de carvão, complexo eixo
norte-sul, uma Deusa Guerreira contra um piolho da água estagnada
do vento, azeite puro, cabeça pequena

quantas ondas tem o oceano do colchão de amar? vamos, vamos
abrilhantar as ondas do teu corpo

vou aquecendo o coração até Agosto, não se pode deixar esfriar a terra
do amor vivo - corpo sobre o nu lençol de linho, a casa nova, o xadrez
jovem da saia em xadrez verde e branco, plissada, só com uma prega
baton vermelho no lugar sensato, baloiça a porta ao som de Piazzola
é o Chile em saudade

mão que segura o império, bastão real, fica com a marca dos lábios
violento tocar da loiça antiga.

José Gil
14-2-2016

quinta-feira, 8 de junho de 2017

A fuga da palavra 37

Fregueses

(à minha pretinha linda, Solange)

estou a escrever na freguesia de Águas Livres
a minha memória próxima, a minha casa aberta
intercontinental - o comboio na estação da Damaia,

marcho no trilho dos fregueses que recuperam
a esperança por descobrir no jardim, no meio
da floresta de prédios e barracas

avanço cedo às sete horas pelo escuro para preparar
os músculos vegetais do teu corpo, é o rosto mais
claro que amo até aos seios fartos que seguro

chuva de sentimentos aí no verão de Itabira

como o queque e bebo a bica por um dia acordado
e assertivo, a fome de pele, vibra devagar o teu lugar
por mais um dia de sol em Minas
aqui chove, é Fevereiro

chegam as flores primárias é o sinal do andar das horas
sem relógio, perco o meu olhar no teu, sei que não és
tu que hoje entras na porta com o teu amor matinal

chegou o malmequer, cintura fina, olhos castanhos

procuro no teu ventre o luar,  amor, na lua fotogénica
entre as almas. gosto tanto do teu sorriso, vem como
o amor perfeito junto da rosa negra, o cravo e a geringonça

vem na manhã de Agosto no Aeroporto General Humberto 
Delgado para chegares onde se mata a saudade e se constrói
o dia feliz, memorial centenário, espectacular como a
tangerina das vindimas.
 
José Gil

quarta-feira, 24 de maio de 2017

A fuga da palavra 36

(à minha esposa jovem e linda, Solange)

chegam as flores na chuva miudinha às oito e trinta
já tenho uma hora de marcha, batem-me no rosto
os pingos leves como carícias e avanço pela floresta
até descobrir o leão preto. pode-se ter perdido de medo
como a palavra e outros animais mais pequenos

toda a rua é rápida de manhã cedo, como o silêncio que
não tem pegado a palavra na língua. será esta? não a
encontro no jardim

chega outra flor de cabelo maior que o leão, cor magenta
vermelha como o sol nas noites de verão junto aos piratas

toco os teus seios como rosas nos meus dedos, pena de
pavão leve para acariciar os mamilos, rodo, os meus dedos
de doce de moça

os cones crescem rosados como a aflição da chuva contínua
bebe amor agora o vinho Piriquita

desenho os teus lábios, sublinho a violeta no teu rosto claro
é verão aí, a fuga da palavra é noticia
regressa amor como o tempo e as novas flores, pretinha, com
as virtudes do inverno europeu o templo claro e o conventinho
escuro e sagrado para a minha língua, ergue a maravilha
quando passas a porta e entra.


José Gil

quinta-feira, 27 de abril de 2017

A fuga da palavra 35

(a meu amor, pretinha Solange)

a água vem na estrada, a estrela fica ao fundo
chove saudade na rua, vai o inverno para a
primavera no eixo verde contigo

avança na calçada, pedra preta pedra branca
gostas de dançar, choro a cada passo uma 
cereja do Fundão

abre a porta do quarto, estou aí com esperança
onde tu tocas há um lugar vegetal e verde
já no território da pedra em fuga ficas derrotada
o teu corpo coberto de cerejas vermelhas cor do 
cabelo, em cada instante magenta

deste lado introvertido, envelheci à espera 

a égua vem na estrada da árvore
da felicidade
antes de passar pela mágica Itabira de
Carlos Drumond de Andrade, meu querido pai
inspirador de Minas
como o barco de Ítaca, a sombra de palácios
na Cova da Moura, a casa, castelo bem ao alto

e descubro a relva nova de cada milagre
via sacra de perímetro em perímetro
vivemos em folhas simples, tatuagens de pele
recato do colo do corpo em seu abafo
toco-te feliz a pele no ombro, doçura
veloz é o tempo que te cruzo

José Gil
(9 de Fevereiro 2016)

quinta-feira, 13 de abril de 2017

A fuga da palavra 34

O Arsenal

(à Solange, meu amor)


o arsenal de flores traz os barcos até à maré baixa
do teu ventre, traz folhas de amor para o Outono
onde procuro no silêncio a sua vontade
e tenho tudo e as sementes da tua sede
para voar devagarinho sobre a casa e o lar
da tua terra mineira onde o cristal é Ouro

bebe, amor, as palavras 


José Gil

sexta-feira, 31 de março de 2017

A fuga da palavra 33


O Mesmo e o outro

(à minha esposa com muita saudade, Solange)

falando na alteridade da água sobre o mármore do inverno,
o signo da identidade,  a essência da poesia e da verdade,
mestre da natureza o poeta pinta a casa que tem desde a
infância toda para si

e a palavra que fugiu falsa sobre a espada do amor eterno
nas folhas de saudade que caem da árvore castanhas
com o vento e a chuva, tocam o teu umbigo

um outro nome que o seu,
o outro que seja sempre língua

a poesia é sempre linguagem.

José Gil

quarta-feira, 22 de março de 2017

a fuga da palavra 32

(à Solange, meu amor divino)


abre o olhar como as flores de tília
as plantas que salvam o mundo,
procura as folhas e a água quente
por um momento de paz
por um instante de esperança

vai passar a guerra como dizem os outros,
um tempo mágico da tília verde
um tempo novo para fazer
a terra dos líquidos comprimidos.
quem espera o osso, a osteopatia,
o ventre liso da batalha, a terra
queimada por esses países fora

um oceano vai nascer, não vai faltar a
água aos seios vermelhos do amor,
oceano fértil onde vive a vagem verde
como toda a natureza na primavera,
os grandes animais, o grande porte

caiados de castanho e branco claro.

José Gil

a fuga da palavra 31: pomba

Pomba


voa pomba entre as laranjeiras de Sevilha
num lugar de fertilização do enamoramento,
os lentos movimentos da origem da natureza
urbana pela selecção das espécies

avançamos, é inverno e o frio não dobra as
páginas do livro

avança, pomba no delírio, carroça poente a
este poema com as suas éguas do sobrado,
as casas estão mascaradas de alegria, a pomba
ri no rio do seu carnaval da carne
a delicia dos favos de mel

são os rios as fontes de benfica, os dias descansados,
o perfume encanta o cabelo magenta vermelho,
as pernas esguias e cruzadas no colo
no coração invisivel dos dedos da
pomba de mel.

José Gil

terça-feira, 21 de março de 2017

A fuga da palavra 30: o pequeno jogo

(à minha mulher pretinha linda, Solange)

O pequeno jogo




o pequeno jogo traz-te no pequeno barco que chega a Leixões, quantos milhares,
meu amor para descer o Douro entre o vinho, Trás-os-montes e o Porto, as escritas
do norte, quero-te branca neste mundo de mulatas a dançar nos palcos de rua,
Carnaval único de carne pura e comida justa

em cada província, os lábios tremem no armário aqui fechado em casa, o céu azul
que pinto da janela: o meu anjo se tu quiseres. telefono,  é sábado amor e voo sem
sair de casa, a pouco e pouco adormeço. vamos.


José Gil

sexta-feira, 17 de março de 2017

a fuga da palavra 29: abre devagar a asa

(a meu amor lindo, Solange)

abre devagar a asa, no contorno do desenho
a rosa fica a sombra a cinza de todo o milagre
do mundo

nascemos lentamente de uma só vez, por um
só soluço e choro a respiração profunda da vida

vamos por este prazer e o outro escrevendo
o que ultrapassa a palavra em fuga

José Gil

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

a fuga da palavra 28

Perfume

(para a minha pretinha mulher, Solange)


as rosas do alcatrão num quente e leve agosto,
inspiração do futuro rumo a um verão refrescante,
a atmosfera da noite para abrir asas e voar

tão jovem é a tua pele, corpo em movimento, estátua
um dedo de conversa, o amor pleno na estrada da agonia
um dia claro e frio, a polpa da vida selvagem

vamos, vais pelo momento do encontro, o dia feliz
a atravessar a terra de barro, as lacunas da rua e do
travesseiro, o corpo rodado por uma hora de perfume 
as ancas relativas à flor do paraíso
uma casa aberta
um tempo novo

atravesso o teu rio claro, o teu umbigo de sangue
a lua nova na montanha, a estrela branca no ar
por um céu magnifico

está frio, um arco de vagabundos, um olhar 
sobre a terra desviada do ventre
onde corre a palavra pela língua
vermelha

José Gil

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

a fuga da palavra 27

(à minha esposa querida, Solange)

dos campos de chá até ti, verde o teu ventre rente às folhas
renova-se a paz dos dedos

Emilia Kamvisi, a grega salvou o bebé Sírio da morte
na ilha de Lesbos, uma das mais bonitas e trágicas da
Europa.

fugiu-lhe uma palavra a Emilia, 85 anos de alimentos e
abafos para os outros por uma causa, está frio, gelo, fome

transversal ao amor como sonhar com este pesadelo,
divina lucidez da acção livre

numa Europa inquinada de revoluções contrárias,
um tempo novo para organizar as ruínas e as rochas
do mar em que te amo. Não é a Sicília, amor, mas podia ser

José Gil

a fuga da palavra 26

Rio das Maçãs

(à minha esposa linda,linda, Solange)

O "rio das maçãs" abre-se junto ao Palácio da Vila,
a ruína humana do Hotel Neto como um nó histórico,
Sintra para correspondência, Rua Conselheiro Segurado,
os prados e os vérgeis que outrora circundavam o hotel
onde Ferreira de Castro escrevia

Fui à Praia Grande em Janeiro do ano passado,
fugi por medo do mar, terá sido o mesmo motivo
da palavra justa

José Gil

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

a fuga da palavra 25

(à minha mulher linda e jovem sempre, Solange)

quem sabe o fogo das rosas no teu peito de madrugada
só os Deuses do trigo e da aveia, os cozinheiros da carne
bem passada dentro do folar de festas na tua aldeia

vibra por um suco de maracujá e um pouco de bola quente
do carvão da noite no forno das tuas ancas brancas

despenteia todos esses cabelos perdidos no pescoço e nas
pernas por uma ascensão ao rosto dos anjos de Belém

esta é a casa, a fazenda com o teu conventinho, dá os cones,
a boca da princesa e espera o leite virginal da terra

perde os lábios no olhar celestial do príncipe.

José Gil

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

a fuga da palavra 24

(à minha esposa jovem e linda, Solange)


a terra queimada do teu sorriso, dos lábios dela foge
a palavra, uma organização vegetal da sedução
a explosão das rosas na Av. da Liberdade
a caminhada da Graça ao centro da cidade
um olhar histórico em que se perdem os laços,
um dia de sentimentos, negrinha minha no coração
da cozinha, o seu olhar amarelo na fumaça, olhos castanhos
fígados de bacalhau para te cantar o vinho

a cama revoltada de lençóis ao vento, os lugares secretos
da casa como a muralha de S. Jorge
o outro olhar da rua
um marmelo na boca
repartido em quatro,
um dia completo

bebe a água dos lugares de Deus, as fontes da ternura
nos dias felizes do encontro - falta tempo, amor
falta tempo para dizer não e dizer então sim, vamos, vem
para onde voa o cabelo, para onde vai o caminho da verdade

o corpo procura depois o sul da palavra em fuga
tropical lugarejo da tua vida, amado Santiago do Chile

Lisboa, revisto, em Damaia, 2 de Fevereiro 2016

José Gil

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

a fuga da palavra 23

(à minha esposa linda,Solange)

desenho negrinha o teu seio na palma da mão
tatuagem erótica da saudade por um fado de alfama
no teu conventinho, rezo toda a floresta do novo dia,
caminho pelos trilhos de amor, viagem nocturna de
andar em terra com solavancos de vales do céu azul,
azul céu do meu espírito para atravessar esta porta
dezenas de vezes até tremer as minhas pernas

procuro-te por uma palavra plural e justa
cor de romã, sabor de amora feliz, Janeiro que passou
um dia para cantar ao sol das matinas. Não chove.
o lugar mais certo do fundo da terra, o centro onde
colocas uma laranja florida, neste mercado de Benfica,

o andarilho chegou primeiro pela fome - na porta do restaurante.

por uma moeda invoca a salvação da reforma. Por um canto único,
o verde do teu vestido novo

procuro as Pedras da Geórgia, os parâmetros lavados das pedras frias,
inchadas ao verde da saúde do acaso

despe o poema, amor até ao poente musical.

José Gil

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

a fuga da palavra 22

(A meu amor lindo, Solange)

Vamos, vem amor
à fruta no pomar dos afectos
Despe a alma da cintura do vestido rápido,
Uma fuga leve para a palavra pura, um
Lugar reservado no coração direito,
Um templo para os Deuses únicos
Traz-me o ícone do teu ventre à lingua
Como Cícero resolveu todos os problemas

Que animal somos no intervalo das águas
Por um Brasil mais perto, a mesma ortografia
A mesma palavra em fuga venenosa como o mosquito
Passa rápida pelos dedos de cera
Uma viagem longa para o teu colo

Vamos, amor, vem a Lisboa às sete
Colinas do tempo novo
Praia grande onde mergulhei jovem no teu conventinho
Nadando por um poema verde
Trinta e três anos  de correias no cavalo
Para montar todo o dia.

José Gil

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

A fuga da palavra 21

Amores Perfeitos
 
(À minha jovem esposa sempre, Solange)
 
Polpa de tomate vivo na mesa
Para preparar os Deuses,o triângulo inútil
Vivo na fotografia todos os parâmetros dos corpos
Colados ao amor de uma década
O silêncio de Belo Horizonte interrompido
Por uma respiração mais profunda
Cortar cabelo e barba e bigode grandioso
A trilogia de um vaso de amores perfeitos
 
Vamos agora ver no Largo Cristóvão da Gama
Os corpos no café Wanda desde 1973, o dia
Aqui nasceu ás 7,23h e já estava a escrever o
Poema para encantar a manhã, só o sol
A laranja do sol aberto no sentimento de saudade
As uvas que comíamos no jardim do Mercado
O lugar marcado do namoro por duas mandarinas
Do meu coração, abro-as gomo a gomo com
Os dedos grossos de te tocar.
 
José Gil

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

A fuga da palavra 20

(À minha esposa sempre jovem, Solange)
 
Chove,
Manhã inútil
Candeia das tuas botas altas de montar
À frente, só prédios altos da Damaia de Baixo
Agora Águas Livres,
Coxas grossas
Esfoladas das minhas mãos macias
E sensuais, arranhas as unhas do sentimento
Vamos, amor no alcatrão molhado
À sua beleza negra e forte em todas
As estradas vizinhas.
 
José Gil

A fuga da palavra 19

(À minha esposa jovem e linda)
 
O amanhecer com chuva escurece o dia. Fecha
A luz da rua às sete e trinta, ando sem ver, caminho,
É uma luta inútil, basta esperar quinze minutos
Para te ver chegar com a luz do afeto ao café
Por um bolinho de bacalhau e uma bica,
Iluminação da minha alma
Seios claros nos lábios grossos, nariz black
Como a neta, à frente os primeiros carros,
A minha alegria e o teu abraço
Deusa de Deus confuso com oração forte.
 
José Gil

A fuga da palavra 18

(à minha mulher linda Solange, pretinha)
 
É o meu, o nosso tempo o que
Se passa hoje na Dinamarca
Das tuas pernas em movimento,
No movimento das minhas
Cruzadas
 
A que distâncias estás, amor
Procuro o mapa dos novos aviões Azul
Prontos a rodar contigo de Belo Horizonte
O corpo desta mulher é um copo de sumo
De laranja fresca e doce
Uma gota de orvalho ela também é
De saias avanças, o fogo está entre nós
E a revolta
 
Como os animais, a nossa vida é pura
Como as línguas do inverno.
Nos joelhos febris
A candeia acende-se
Há luz por todo o lado
Como a cinza de Hiroshima
Ardem os países em guerra.
Que significa isso,
Um corpo ama outro
Corpo e perde-se.
 
José Gil

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

A fuga da palavra 17

Refugiados
 
 
À minha esposa linda, Solange, negrinha
 
És o bebé que morreu na praia
Arame farpado das nossas consciências
Nas novas fronteiras antigos destinos
O choro acompanha-me para dentro
Da Europa
Como a um refugiado,
Começei a escrever como um refugiado
Em fuga da palavra sem destino na
Suécia, Inglaterra ou Alemanha
Até sinto-me um refugiado
Sem bens na Dinamarca, país podre
Pode haver em mim alma de árabe
Procuro-te entre eles, mulher, prazer,
Meu amor gostoso neste carnaval
Da europa, dificil até para Deus
Um Deus Plural, único, mais para uns
Do que para outros
Olho do oceano atlântico
Para me veres no PC-Skype
Pelo celular a minha voz mais perfeita,
Sedutora, tenho, amor o meu mel
A ele te juntas para evitar a morte, só
Resgatados no mediterrâneo
Vem amor, sem torturas, vamos
Fugir da morte grega
Com bolsos de desejo, onde
Guardo o falo para não sentir o
Imcompreensível século XXI
Onde o mar abre para a eternidade
Caminha comigo com água pela cintura
E entra na areia europeia
Com o teu grito nu
Sem voz
Só nudez
Amarga.
 
José Gil

A fuga da palavra 16

Andarilho

À minha linda esposa, Solange

Entras e sais veloz do café, rua café
Café rua, andarilho de todas as madrugadas
Dos meus pesadelos de fronteira entre
As loucuras possíveis, é uma corrida inútil
Por uma moeda, uma bica, a roupa usada

O teu corpo rompe a bolha do cansaço
Como a linha do desejo, o meu conforto
Amo-te todos os dias
Não conheces o andarilho, namorada

José Gil