quarta-feira, 20 de outubro de 2010

a multidão abstracta



(fotografia de bill brandt, "train leaving newcastle, 11/25", 1940"


“a multidão abstracta do significado”



um comboio é um comboio oculto
pode não ter significado para lá
da exclusividade de transportar
os teus cones negros e rosa

estranho é o que se passa no teu relógio
quando estás ao pé de mim, não é
uma coisa oculta mas tem o significado
da carne e do suor de dois corpos no
comboio vazio entre as praias do sado e barreiro

já de noite, olho-te e não vejo os teus olhos
caminho na cabeça dos pensadores e a coisa
fica assim resgatada nos mediadores entre
os nossos corpos e o oculto real dos campos
negros da noite no sensacionismo omisso
em cada escrito, todo o corpo tem várias
vozes como a noite ante a evolução íntima
o comboio tem vários comboios e corre
atrás de outros comboios e de si próprio
é uma linha e um horário, não quero pensar
mais nele, estou sentado no banco sete e vou
nele até entrar perto de Lisboa e da sua salça

José Gil

1 comentário:

Pedra do Sertão disse...

Olá, Gil,

Aproveitanto o feriadão para ler as novidades dos blogs amigos! A imagem "casa" bem com o poema!